Em The Mountain, o Gorillaz usou gravações de arquivo de seis colaboradores que já haviam morrido: Dennis Hopper, Bobby Womack, Dave Jolicoeur, Tony Allen, Proof e Mark E. Smith. As vozes aparecem em cinco faixas do álbum lançado em 27 de fevereiro de 2026. A origem documentada é o acervo de sessões anteriores do grupo, não uma nova apresentação desses artistas nem uma alegação comprovada de vozes recriadas por inteligência artificial.
Há diferenças importantes entre as participações. Damon Albarn identificou tomadas alternativas de uma narração de 2005, falas captadas em estúdio, material inédito de sessões antigas e até um freestyle recuperado praticamente inteiro. Para dois convidados, os créditos e as entrevistas confirmam a participação póstuma, mas não localizam com exatidão a gravação original.
Quais são as cinco faixas com participações póstumas?
A discografia publicada pelo Gorillaz no Bandcamp e a relação de créditos divulgada pela Pitchfork permitem relacionar cada voz à faixa correta. A origem específica abaixo vem das explicações de Albarn à Homegrown; quando elas não identificam uma sessão, o limite está indicado.
| Faixa | Artista falecido | Origem documental da voz |
|---|---|---|
| The Mountain | Dennis Hopper | Tomadas alternativas da narração de Fire Coming Out of the Monkey's Head, registrada para Demon Days (2005). Crédito: trecho falado. |
| The Moon Cave | Bobby Womack | Conversas e falas preservadas durante sessões anteriores com Albarn, inclusive momentos na cabine de voz; a faixa exata de origem não foi apontada. |
| The Moon Cave | Dave Jolicoeur (Trugoy, De La Soul) | Participação extraída do acervo de antigas colaborações do Gorillaz; a sessão ou tomada original não foi especificada nas fontes consultadas. |
| The Hardest Thing | Tony Allen | Voz falada recuperada de gravações anteriores do círculo de colaboradores; não foi identificada publicamente a sessão precisa nas fontes consultadas. |
| The Manifesto | Proof (D12) | Freestyle inédito encontrado intacto entre gravações antigas. A nova música foi construída em torno dessa performance. |
| Delirium | Mark E. Smith (The Fall) | Material não utilizado nas sessões de Plastic Beach. Albarn aproveitou as sobras para criar uma música nova com a voz do cantor. |
São seis artistas em cinco faixas porque The Moon Cave reúne Bobby Womack e Dave Jolicoeur. A tabela identifica a origem documental conhecida, não todas as etapas técnicas de edição e mixagem.
Como Damon Albarn recuperou essas gravações
Na entrevista publicada pela Homegrown em 26 de fevereiro de 2026, Albarn explicou que foi procurar arquivos de músicos com quem já havia trabalhado. Algumas sessões tinham conservado pouco material além das versões finais, enquanto outras guardavam conversas, improvisações e tentativas descartadas. O critério narrado pelo músico era trazer essas pessoas novamente para o universo do disco.
O exemplo mais direto é Dennis Hopper. Ele gravou várias leituras de Fire Coming Out of the Monkey's Head, faixa de Demon Days. Albarn contou que a palavra 'mountain' surgia repetidamente nas tomadas guardadas; o ator, portanto, não voltou ao estúdio para gravar o álbum de 2026. Nos créditos de The Mountain, sua contribuição aparece como fala, não como canto.
Bobby Womack deixou um acervo diferente: além de interpretações, havia diálogos enquanto trabalhava com Albarn. Para Mark E. Smith, a fonte foi o material que sobrara das sessões de Plastic Beach. Já a descoberta de Proof foi uma performance de rap inteira, inédita, aproveitada como base de The Manifesto. Esses quatro relatos são específicos; a documentação consultada não oferece o mesmo nível de detalhe para a origem individual das vozes de Tony Allen e Dave Jolicoeur.
Arquivo antigo e colaboradores atuais convivem na mesma faixa
O crédito de um convidado não informa, por si só, quando sua voz foi captada. The Moon Cave combina Womack e Jolicoeur, cujas participações são póstumas, com Asha Puthli, Jalen Ngonda e Black Thought. The Manifesto aproxima o freestyle arquivado de Proof da participação de Trueno. Isso ajuda a entender por que uma gravação antiga pode fazer parte de uma composição e de uma produção musical concluídas muito depois.
Os créditos também diferenciam tipos de contribuição: Dennis Hopper e Tony Allen aparecem com 'spoken words', enquanto outros participantes são identificados como vocalistas. Além dessas vozes, o álbum reúne artistas como Anoushka Shankar, Ajay Prasanna, Amaan e Ayaan Ali Bangash, IDLES e Johnny Marr. Chamar todas essas colaborações de gravações póstumas apagaria tanto o trabalho dos músicos participantes quanto a história real dos arquivos.
As vozes foram geradas por inteligência artificial?
Não é isso que as fontes documentam. Albarn descreve a busca e a reutilização de registros sonoros já existentes. A Homegrown detalha de onde saíram materiais de Hopper, Womack, Smith e Proof, e a Pitchfork distingue nos créditos quem fala ou canta em cada faixa. Essa documentação sustenta a explicação de que as participações póstumas foram montadas a partir de gravações antigas.
Isso não equivale a uma auditoria técnica de todo o processo de produção. Sem documentação abrangente sobre cada ferramenta empregada em edição, restauração ou mixagem, seria incorreto afirmar que nenhuma tecnologia de IA foi utilizada em qualquer etapa. Também não há base, nas fontes examinadas, para dizer que essas seis vozes foram criadas sinteticamente.
Por que o Gorillaz trouxe essas vozes de volta?
The Mountain foi desenvolvido em torno de experiências de perda e das viagens de Albarn e Jamie Hewlett à Índia. Os dois falaram publicamente sobre a morte de seus pais durante a elaboração do projeto. A ideia de reunir vozes de pessoas ausentes passou a dar forma musical a um tema que o disco já tratava: como a memória de alguém continua presente.
Em vez de apresentar as participações como colaborações realizadas em 2026, o caminho mais fiel aos documentos é vê-las como performances anteriores reorganizadas em canções novas. A origem exata de parte delas está descrita pelo próprio Albarn; onde ele não deu essa informação, os créditos confirmam a presença da voz, mas não permitem inventar o restante da história.





