FilmesJeferson Dantas5 min de leitura

O Nevoeiro (2007): por que Darabont mudou o final de Stephen King?

O filme de Frank Darabont transforma uma hipótese sombria da novela de Stephen King em tragédia. Compare os dois finais, as entrevistas do diretor e a aprovação do escritor.

Montagem dividida entre um livro ilustrado com o nome Stephen King e The Mist e, do outro lado, um adulto com uma criança diante de janelas cobertas por névoa e sombras de criaturas gigantes.

Frank Darabont mudou o final de O Nevoeiro (The Mist, 2007) porque considerava que o cinema precisava de um encerramento mais definitivo do que a incerteza deixada por Stephen King. Sua solução foi transformar uma possibilidade sombria que o próprio escritor havia colocado na cabeça de David Drayton em uma decisão irreversível. King leu o roteiro, aprovou o desfecho e depois admitiu o quanto a versão filmada era chocante.

Atenção: o texto a seguir revela integralmente os finais da novela de Stephen King e do filme de 2007.

O que acontece no final da história de Stephen King?

O Nevoeiro é uma novela curta, não um romance originalmente publicado como livro independente. Saiu primeiro na antologia Dark Forces, em 1980, e voltou à circulação na coletânea Skeleton Crew, de 1985. No texto, David escapa do supermercado com seu filho Billy, Amanda Dumfries e a senhora Reppler. A ameaça continua do lado de fora, mas a narrativa não entrega um destino definitivo para os quatro.

Durante a viagem, David capta no rádio o que acredita ser a palavra Hartford, nome de uma cidade de Connecticut. Esse sinal pode indicar algum refúgio, mas não há confirmação de que seja uma transmissão confiável ou de que os sobreviventes consigam alcançá-lo. A palavra esperança acompanha o encerramento: os personagens seguem vivos até o ponto em que o relato termina, sem vitória assegurada.

Como termina o filme de 2007?

Na adaptação, David, interpretado por Thomas Jane, deixa o supermercado com Billy, Amanda, Irene Reppler e Dan Miller. Quando o combustível do carro acaba no meio da névoa, restam quatro balas para cinco pessoas. Convencido de que não há saída e de que criaturas logo os atacarão, David mata os outros quatro ocupantes, inclusive o filho, para poupá-los de uma morte que imagina ainda pior.

Sem munição para si, ele sai do veículo esperando ser morto. Em vez de monstros, surgem soldados e veículos militares combatendo as criaturas e retirando pessoas da região. O socorro chega logo depois dos disparos. David entende que sua decisão não era inevitável e desaba diante do que fez. O filme, portanto, resolve o destino imediato dos ocupantes do carro de modo oposto à narrativa escrita: nela, os quatro continuam tentando sobreviver; na tela, David é o único do grupo que permanece vivo.

Entre os resgatados aparece a mulher que havia deixado o supermercado para procurar os próprios filhos, agora ao lado deles. O reaparecimento contrasta com a escolha de David e reforça a ironia sem provar que toda pessoa que tivesse permanecido parada seria salva. Em entrevista, Darabont atribuiu ao ator Jeffrey DeMunn, intérprete de Dan Miller, a sugestão de trazer essa mulher de volta no comboio.

De onde veio a ideia do desfecho mais cruel?

Darabont não apresentou a sequência como uma invenção desligada do original. Em entrevista à Lilja’s Library, em 2008, contou que uma passagem do texto de King o levou à ideia: David examina a arma e considera a possibilidade extrema de usar as balas para evitar que os companheiros sofram nas mãos das criaturas, caso não encontre alternativa. No livro, isso continua sendo uma hipótese. O diretor a converteu no acontecimento decisivo do roteiro.

O próprio Darabont já havia descrito, em entrevista de novembro de 2007, seu método de adaptação: encontrar pistas e ideias latentes na prosa de King e desenvolvê-las na linguagem do cinema. Sua alteração, portanto, preserva um pensamento que existia na história, mas muda radicalmente o que os personagens fazem e o que o leitor ou espectador sabe sobre o futuro deles.

Por que Darabont preferiu um final fechado?

Segundo o diretor, o fim aberto funcionava como literatura, mas não oferecia o impacto conclusivo que procurava para um longa-metragem. A decisão também dialoga com o terror de ironia amarga de Além da Imaginação (The Twilight Zone) e com filmes como A Noite dos Mortos-Vivos, referências que Darabont mencionou ao discutir a adaptação. O choque não deveria depender apenas dos monstros: o medo, a falta de perspectiva e a pressa em acreditar no pior conduziriam à tragédia.

Há ainda uma dimensão prática documentada. Darabont relatou que um potencial financiador ofereceu um orçamento maior sob a condição de alterar o final; ele recusou e realizou o filme por um valor menor, mantendo sua escolha. Não foi, portanto, um desfecho sombrio imposto pelo estúdio contra a vontade do cineasta. A tensão estava justamente em conseguir filmá-lo sem suavizá-lo.

Stephen King gostou da mudança?

Sim. Em uma entrevista conjunta publicada em novembro de 2007, King disse que adorou o encerramento escrito por Darabont e destacou que ele dava à história uma conclusão clara. Também reconheceu que o impacto da cena na tela o fez hesitar por um instante, tamanha a brutalidade. O diretor contou em outras entrevistas que King lamentou não ter pensado naquela solução para a própria narrativa.

Essa aprovação não significa que King tenha escrito o final do filme nem que sua novela esconda um resgate militar confirmado. O que o texto oferece é o ponto de partida para o dilema; a escolha, a chegada dos soldados e sua justaposição cruel pertencem à construção dramática da adaptação.

O que a mudança altera no sentido da história?

Na novela, o horror deixa aberta a possibilidade de continuar: a palavra ouvida no rádio pode ser esperança real ou apenas a interpretação desesperada de David. No filme, o público recebe uma resposta imediata sobre o alcance daquela ameaça no local e vê que o pior ato foi praticado justamente quando o socorro se aproximava. A ameaça física cede espaço a um erro humano sem reparação.

Isso permite ler os dois finais como variações de uma mesma pergunta: como alguém decide quando não dispõe de informação suficiente? A versão escrita interrompe a resposta antes da decisão final; Darabont mostra as consequências de decidir cedo demais. Não é necessário atribuir poderes sobrenaturais às previsões da senhora Carmody, nem imaginar que o texto de King confirmou uma salvação: nenhuma das duas conclusões é demonstrada pelas respectivas narrativas.

Fontes e referências

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