Let It Be (1970) e The Beatles: Get Back (2021) contam histórias diferentes porque partem das filmagens das mesmas sessões dos Beatles, realizadas em janeiro de 1969, mas usam seleções, montagens e durações distintas. Michael Lindsay-Hogg construiu um longa concentrado na experiência musical; Peter Jackson revisitou o arquivo e organizou uma série de três episódios que acompanha os acontecimentos com muito mais contexto. Os dois documentários se complementam: um não substitui o outro.
A diferença não é que um registro seja verdadeiro e o outro falso. É uma questão de perspectiva editorial, de material incluído ou deixado de fora e também do momento em que cada produção chegou ao público. O longa estreou após a notícia da separação da banda; a série foi lançada mais de cinco décadas depois.
Aviso: a partir daqui, o texto comenta acontecimentos apresentados nos documentários.
Mesmo material de origem, dois filmes diferentes
As câmeras de Lindsay-Hogg registraram ensaios, gravações, conversas e a apresentação no terraço da sede da Apple. Jackson teve acesso a aproximadamente 60 horas de filmagem e a mais de 150 horas de áudio daquele projeto, segundo a documentação oficial. Essa quantidade permitiu acompanhar passagens que não cabiam no longa original.
| Aspecto | Let It Be (1970) | The Beatles: Get Back (2021) |
|---|---|---|
| Direção | Michael Lindsay-Hogg | Peter Jackson, a partir do arquivo filmado por Lindsay-Hogg |
| Formato | Longa-metragem de cerca de 81 minutos | Série documental em três episódios longos |
| Recorte | Seleção condensada de ensaios, gravações e apresentação | Percurso mais extenso das sessões e das relações entre os integrantes |
| Show no terraço | Parte do encerramento do filme | Apresentação mostrada integralmente, segundo os responsáveis |
| Chegada ao público | Maio de 1970, nos cinemas | 25, 26 e 27 de novembro de 2021, no Disney+ |
O que aconteceu em janeiro de 1969
A cronologia histórica ajuda a entender por que as duas obras têm os mesmos cenários e, ainda assim, deixam impressões diferentes:
- Primeira quinzena: os Beatles ensaiam no Twickenham Film Studios, em Londres, sob o título de trabalho Get Back. A proposta inicial envolve preparar músicas novas e voltar a se apresentar ao vivo. A equipe de Lindsay-Hogg filma o processo.
- A partir de 22 de janeiro: o grupo trabalha no estúdio instalado na sede da Apple, em 3 Savile Row. Billy Preston participa das gravações, e a aproximação do prazo transforma a dinâmica musical e as decisões sobre o espetáculo.
- 30 de janeiro: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, acompanhados por Billy Preston, tocam no terraço do prédio. Essa apresentação aparece nas duas produções, com espaço e tratamento diferentes.
Essas filmagens pertencem a um projeto que originalmente se chamava Get Back. O filme e o álbum resultantes passaram a se chamar Let It Be; a história desse material não deve ser confundida com a ordem de lançamento dos discos da banda.
O que Lindsay-Hogg e Jackson escolheram mostrar
No longa de 1970, o pouco mais de uma hora disponível dá destaque às canções sendo trabalhadas, à convivência no estúdio e ao show final. Existem momentos descontraídos e de colaboração, assim como atritos. Por isso, descrevê-lo apenas como um filme triste sobre a separação dos Beatles apaga uma parte importante de seu conteúdo. Em análise publicada no The New Yorker, Richard Brody observa justamente como a reputação sombria do documentário não dá conta de sua energia musical.
Jackson adota uma construção mais cronológica e demorada. A série oferece espaço para brincadeiras, impasses, decisões de produção e evolução das músicas. Também inclui a saída temporária de George Harrison durante os ensaios, ausente da versão lançada em 1970. Em entrevista a Whitney Friedlander, Peter Jackson afirmou que esse episódio havia sido filmado por Lindsay-Hogg, mas não pôde entrar no longa original por objeções da banda naquele momento.
O diretor de Get Back procurou evitar repetir os mesmos planos sempre que existiam alternativas. Michael Lindsay-Hogg confirmou, em entrevista a Rob Sheffield para a Rolling Stone UK, que as obras compartilham acontecimentos, mas não foram concebidas como uma simples duplicação das mesmas cenas. O show no terraço é uma convergência inevitável, embora a série apresente o concerto inteiro.
A separação dos Beatles aconteceu durante essas sessões?
Não. As gravações documentadas ocorreram em janeiro de 1969, enquanto a ruptura pública da banda se consolidou em 1970, pouco antes de Let It Be chegar aos cinemas em maio. Nesse intervalo, os Beatles ainda trabalharam no álbum Abbey Road, lançado em 1969. Tratar as imagens do início de 1969 como o registro literal do dia da separação mistura momentos históricos distintos.
Lindsay-Hogg atribui parte da recepção melancólica de Let It Be ao contexto do lançamento. Essa é uma explicação do próprio diretor, não uma prova de que todos os espectadores interpretaram a obra da mesma maneira. Get Back apresenta mais atritos e mais afeto, sem eliminar as tensões que existiam entre os músicos.
A restauração de 2024 transformou Let It Be em outro documentário?
Não. Em 8 de maio de 2024, o Disney+ lançou uma versão restaurada do longa de Michael Lindsay-Hogg. A equipe da Park Road Post Production, ligada a Peter Jackson, trabalhou a partir do negativo original em película de 16 mm e recuperou a imagem e o som com técnicas também usadas em Get Back. O relançamento foi apresentado oficialmente como a recuperação do filme de 1970, não como uma nova montagem equivalente à série.
A restauração permite comparar as duas linguagens com qualidade de imagem e áudio mais próxima. Não elimina, porém, a diferença central: Let It Be continua sendo o recorte de Lindsay-Hogg, inclusive com passagens que não aparecem em Get Back.
Qual documentário assistir primeiro?
Para quem deseja compreender a sequência de janeiro de 1969 e o contexto das discussões, a ordem mais prática é começar por The Beatles: Get Back (2021) e depois ver Let It Be (1970), preferencialmente na restauração de 2024. Assim, o longa aparece como a obra cinematográfica que nasceu da produção acompanhada na série.
- Get Back primeiro: melhor para acompanhar a cronologia, o processo de criação e as tensões em detalhe antes de comparar a montagem original.
- Let It Be primeiro: melhor para experimentar o ponto de vista de 1970 e perceber quanto contexto Jackson acrescentou posteriormente.
Os dois títulos tiveram lançamentos no Disney+, mas a disponibilidade e as condições de acesso podem variar conforme país e data. A ordem sugerida é editorial, não uma cronologia obrigatória. E o documentário Let It Be não deve ser confundido com o álbum homônimo: um é filme, o outro é disco, embora estejam ligados ao mesmo projeto.
Fontes e referências
- The Beatles: Let It Be, restaurado em 2024
- The Beatles: The Beatles: Get Back, ficha oficial
- The Beatles: Anthology, cronologia de 1969
- Disney+: comunicado de lançamento de Get Back (2021)
- Disney+: press kit de Let It Be (2024)
- Rotten Tomatoes: entrevista de Whitney Friedlander com Peter Jackson
- Rolling Stone UK: Rob Sheffield entrevista Michael Lindsay-Hogg
- The New Yorker: análise de Richard Brody sobre Let It Be





