A versão de 218 minutos de O Último Imperador (1987) não é a montagem preferida por Bernardo Bertolucci. Ela foi preparada para a televisão por uma exigência contratual de produção. Depois dessa etapa, o cineasta e a montadora Gabriella Cristiani continuaram trabalhando até chegar à versão exibida nos cinemas em 1987. A Criterion Collection confirmou a preferência do diretor pela montagem cinematográfica e explicou por que a versão longa acabou sendo chamada, de maneira enganosa, de director's cut.
Os 218 minutos surgiram de um compromisso com a televisão
Em uma explicação publicada em 3 de janeiro de 2008, Kim Hendrickson, produtora executiva da Criterion, relatou o que ouviu do diretor de fotografia Vittorio Storaro durante a preparação de uma edição em vídeo. O acordo original de produção exigia a entrega de uma versão para televisão com cerca de quatro horas. Os responsáveis organizaram o material em quatro episódios com mais de 50 minutos cada, totalizando 218 minutos.
A ordem do processo importa: segundo o relato, Bertolucci e Cristiani prosseguiram com a edição depois de entregar a versão televisiva. Assim, a metragem maior não representa necessariamente uma revisão posterior em que o diretor recuperou sua concepção definitiva. A montagem lançada nos cinemas em 1987 foi o resultado seguinte desse trabalho de refinamento.
Qual corte Bertolucci considerava definitivo?
Storaro informou à Criterion que a versão aprovada pelo diretor era a cinematográfica, também utilizada como referência para o trabalho de transferência de imagem que ele havia supervisionado. Para eliminar a dúvida, Hendrickson procurou o próprio Bertolucci. Ele confirmou a preferência pelo corte de cinema e descreveu a versão mais longa como pouco diferente, mas, em sua avaliação, mais tediosa. Trata-se de uma opinião atribuída ao cineasta, não de um juízo universal sobre a qualidade das montagens.
Isso distingue duas questões frequentemente confundidas: Bertolucci participou da produção da versão televisiva, mas preferia a edição final de cinema. A expressão corte do diretor só ajuda se identificar qual montagem o autor escolheu como resultado definitivo, e não simplesmente a que conserva mais minutos.
Por que há durações de 163, 165 e 218 minutos?
As próprias fontes empregam números diferentes para a montagem de cinema. O catálogo atual da Criterion informa 163 minutos, enquanto o texto editorial de 2008 menciona 165 minutos para a cópia cinematográfica em NTSC. As fontes consultadas não explicam exatamente a diferença de dois minutos. Por isso, ela não deve ser apresentada como prova da existência de um terceiro corte narrativo.
| Identificação | Duração informada | O que a fonte estabelece |
|---|---|---|
| Versão de cinema, catálogo atual da Criterion | 163 minutos | É a montagem cinematográfica apresentada na ficha da edição 4K. |
| Versão de cinema, relato da Criterion de 2008 | 165 minutos | É a duração citada para a apresentação em NTSC; corresponde à montagem preferida pelo diretor no relato. |
| Versão televisiva | 218 minutos | Montagem preparada em quatro episódios por exigência do acordo de produção. |
Como conferência independente da existência das duas apresentações, o catálogo da biblioteca da Universidade de Indiana descreve a edição Criterion em DVD de 2008 com discos separados para a versão cinematográfica e a televisiva. Seu registro atribui 162 minutos ao disco de cinema e 218 ao de televisão, outra indicação de que fichas de mídia física nem sempre registram a mesma minutagem para o corte curto. Esse dado não altera a preferência documentada de Bertolucci.
De onde veio o rótulo incorreto de director's cut?
Hendrickson registrou que a versão televisiva vinha sendo comercializada, em certas edições anteriores, como se fosse o director's cut aprovado. A equipe da Criterion inicialmente também trabalhou com essa denominação, até consultar Storaro e Bertolucci. Na edição preparada pela empresa, a identificação passou a distinguir explicitamente o corte de cinema da versão para televisão.
Não há contradição em uma edição aprovada pelo diretor incluir ambos os materiais. A aprovação da apresentação principal não transforma automaticamente todo conteúdo adicional da caixa na montagem definitiva. Da mesma forma, o termo versão estendida pode descrever uma duração maior, mas não certifica a intenção artística final.
Qual versão vale escolher em DVD, Blu-ray ou 4K?
Para conhecer o filme na montagem preferida por Bertolucci, escolha a versão de cinema. A versão de 218 minutos interessa especialmente a quem deseja comparar a estrutura preparada para televisão com o resultado mais concentrado da edição cinematográfica. Ela é uma alternativa histórica, não uma substituta obrigatória.
A ficha da edição 4K UHD + Blu-ray da Criterion anuncia uma restauração digital 4K do filme, identifica a apresentação principal com 163 minutos e lista a versão televisiva de 218 minutos entre os extras. Isso descreve essa edição específica; não confirma que toda edição física ou todo serviço disponível no Brasil ofereça as duas montagens. Antes de comprar, verifique a lista de discos e extras da edição anunciada, sem depender apenas de um selo director's cut na embalagem.
A documentação consultada permite estabelecer a origem, a finalidade e a preferência do diretor. Ela não oferece uma comparação plano a plano das cenas exclusivas; atribuir sequências específicas à versão longa sem análise direta das duas cópias seria extrapolar as fontes.





