A série O Eternauta transformou Juan Salvo em veterano da Guerra das Malvinas para dar uma explicação plausível à sua familiaridade com armas e, ao mesmo tempo, ligar a resistência contra a invasão fictícia a uma memória histórica argentina. A mudança também acomodou a idade de Ricardo Darín, protagonista da adaptação lançada pela Netflix em 2025. Bruno Stagnaro, criador e diretor da série, explicou essas razões em entrevistas e encontros públicos.
O que mudou entre a HQ de 1957 e a série de 2025?
Escrita por Héctor Germán Oesterheld e desenhada por Francisco Solano López, a história original começou a ser publicada em 1957 e continuou até 1959. Juan Salvo vive a ameaça da nevasca mortal em uma Buenos Aires contemporânea aos leitores daquele período. Segundo Stagnaro, na HQ o personagem já tinha uma justificativa para saber atirar: era reservista e tinha boa pontaria. Portanto, a série não inventou do zero um protagonista capaz de manejar armas, mas substituiu a explicação de sua experiência.
A adaptação desloca a ação para um presente reconhecível e apresenta um Salvo mais velho, interpretado por Darín. A reportagem da Newsweek Argentina descreve o homem da HQ como alguém na faixa dos 40 anos, enquanto a versão televisiva tem mais de 60 e um passado como ex-combatente. Como a guerra ocorreu em 1982, esse histórico seria impossível dentro da cronologia da primeira publicação. Ele pertence à reinterpretação audiovisual, não a uma informação esquecida do quadrinho original.
| Aspecto | HQ original, 1957-1959 | Série, 2025 |
|---|---|---|
| Tempo da história | Buenos Aires contemporânea dos anos 1950 | Buenos Aires trazida para a contemporaneidade |
| Juan Salvo | Protagonista mais jovem, na faixa dos 40 anos segundo a comparação publicada | Personagem mais velho vivido por Ricardo Darín |
| Experiência com armas | Reservista e atirador habilidoso, conforme explicação de Stagnaro | Passado ficcional como veterano da Guerra das Malvinas |
| Referência a Malvinas | Não integra o passado do personagem, pois a guerra ainda não havia ocorrido | Passa a fazer parte da biografia do protagonista |
Por que a idade de Ricardo Darín levou à solução das Malvinas?
Stagnaro contou à agência EFE que inicialmente via dificuldades em escalar um protagonista perto dos 60 anos para uma história fisicamente exigente. Em declarações reproduzidas pelo Infobae, explicou a virada: a faixa etária de Darín era compatível com a de alguém que tivesse combatido nas Malvinas quando jovem. O que parecia um obstáculo do elenco tornou-se uma forma de construir o passado do personagem.
Havia ainda uma questão de verossimilhança. Em entrevista a Ernesto Ise, publicada pelo Buenos Aires Times, Stagnaro contrapôs a explicação do reservista na HQ ao risco de fazer um cidadão comum da adaptação parecer um atirador experiente sem preparo anterior. O serviço em uma guerra real fornecia uma origem narrativa para a relação de Salvo com armas. Isso não prova que a experiência militar explique todas as suas decisões ou que ele seja um soldado invencível. Explica a escolha de roteiro revelada pelo diretor.
Por que inserir uma guerra real em uma ficção científica?
A solução não foi apenas prática. Stagnaro disse ao Buenos Aires Times que queria reconhecer uma geração de ex-combatentes cuja experiência muitas vezes ficou pouco visível. No debate relatado pelo Infobae, o cineasta também tratou Malvinas como uma ferida ainda presente na sociedade argentina. Martín Oesterheld, neto do autor e consultor criativo da série, acrescentou ao encontro a ideia de um Juan Salvo marcado pela vida, alguém que já havia sobrevivido a uma experiência extrema antes da nevasca.
Essa dimensão pede cuidado histórico. A Guerra das Malvinas, ou Guerra das Falklands na nomenclatura britânica, ocorreu entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, quando a Argentina vivia sob uma ditadura militar e combateu o Reino Unido no Atlântico Sul. A Defensoría del Público argentina recomenda que as memórias dos combatentes sejam apresentadas sem apagar o contexto da junta que enviou tropas às ilhas. Juan Salvo é fictício; a guerra, suas vítimas e os veteranos reais não são.
O que a alteração preserva da história original?
Ao atualizar os anos 1950, Stagnaro procurou conservar a sensação de uma catástrofe inesperada ocorrendo no presente dos espectadores. Em entrevista ao Buenos Aires Times, ele argumentou que a HQ era contemporânea quando surgiu e que filmá-la necessariamente como peça de época não reproduziria o mesmo efeito. A Netflix identifica como ponto central da adaptação a reação coletiva de Juan e seus amigos diante da ameaça. Assim, o passado nas Malvinas individualiza o protagonista, mas não substitui o grupo que resiste com ele.
Há uma diferença entre intenção documentada e interpretação. É documentado que a equipe usou a idade, a experiência militar e a memória dos ex-combatentes para remodelar Salvo. Já concluir que cada gesto do personagem seja uma referência direta à guerra depende de analisar cenas específicas, não das entrevistas por si sós. A mudança é mais precisa quando vista como uma ponte entre duas épocas argentinas: a ficção de 1957, criada para conversar com seu presente, e a série de 2025, que reconstrói esse diálogo a partir de outra geração.
Fontes e referências
- Netflix, anúncio oficial da série
- Buenos Aires Times, entrevista de Ernesto Ise com Bruno Stagnaro
- Infobae, reportagem de Patricia Kolesnicov sobre debate com os criadores
- Agência EFE, entrevista de Laura Guarinoni e Florencia Pessarini
- Newsweek Argentina, comparação da HQ com a série
- Defensoría del Público, contextualização histórica da Guerra das Malvinas





