A série Pachinko alterna décadas porque a criadora Soo Hugh queria mostrar a juventude de Sunja e a vida adulta de seu neto Solomon como histórias que se respondem. O romance de Min Jin Lee, publicado em 2017, avança sobretudo em ordem cronológica, acompanhando as gerações da família. A adaptação do Apple TV, lançada em 2022, aproxima passado e 1989 desde o início para revelar, ao mesmo tempo, escolhas feitas por uma geração e as consequências vividas por outra.
A mudança é deliberada, não um erro na cronologia. Em entrevistas à ELLE e ao TheWrap, Hugh explicou que queria dar a Solomon espaço narrativo desde os primeiros episódios, em vez de esperar a história avançar até a fase mais recente da família. O resultado preserva o eixo familiar do livro, mas altera a maneira como o público descobre suas conexões.
Como o livro organiza a história e como a série a reorganiza
No livro, o leitor conhece as origens de Sunja, acompanha seu crescimento e segue a família conforme os anos passam. A trajetória dos descendentes ganha peso à medida que essa história se desenvolve. O sentido de continuidade vem da sucessão: a experiência dos mais velhos antecede, na leitura, a dos mais jovens.
Na televisão, a montagem cria duas frentes narrativas de grande destaque. A primeira acompanha Sunja na Coreia sob domínio colonial japonês e, depois, sua vida no Japão. A segunda mostra Solomon em 1989, lidando com trabalho, pertencimento e relações familiares. A sinopse oficial do primeiro episódio já coloca lado a lado a infância de Sunja, na Coreia dos anos 1920, e a atuação profissional de Solomon décadas depois.
Isso não significa que os personagens vivam literalmente os mesmos acontecimentos em simultâneo. O que existe é uma simultaneidade para o espectador: dois períodos históricos diferentes são apresentados em sequência alternada, para que uma situação ilumine a outra.
A cronologia paralela de Pachinko, em três etapas
O quadro abaixo é um mapa de leitura, não uma lista exaustiva de todas as cenas ou anos da história. Ele mostra onde os principais eixos se encontram na montagem televisiva.
| Período e núcleo | No romance | Na série |
|---|---|---|
| Primeiras décadas do século XX: origens de Sunja na Coreia | Integram o começo da trajetória familiar. | Surgem desde a abertura, intercaladas com 1989. |
| Anos 1930 e 1945: vida de Sunja no Japão | Fazem parte do avanço histórico da família. | O passado continua a avançar enquanto a montagem retorna ao núcleo de Solomon. A segunda temporada retoma Sunja em Osaka em 1945. |
| 1989: Solomon e a geração mais jovem | Aparece na fase posterior da saga. | Tem uma linha narrativa própria desde a primeira temporada e permanece em paralelo à história anterior. |
O comunicado oficial da Apple para a segunda temporada confirma a continuidade desse desenho: as histórias se desdobram em Osaka, em 1945, e em Tóquio, em 1989. A temporada estreou em 23 de agosto de 2024. Portanto, a alternância temporal não se limita ao episódio de estreia.
Por que Solomon precisa aparecer tão cedo?
Hugh explicou à ELLE que uma versão totalmente linear poderia se concentrar no amadurecimento de Sunja. O que ela também queria investigar era o amadurecimento de Solomon, cuja vida carrega efeitos de experiências que ele não viveu pessoalmente. Ao colocá-los lado a lado, a série compara gerações sem reduzir uma à simples explicação da outra.
Há um contraste importante: Sunja enfrenta privações e deslocamentos num contexto histórico de colonização e migração; Solomon se move por ambientes corporativos em 1989, mas suas oportunidades não apagam os conflitos de identidade e pertencimento. A montagem permite observar diferenças de circunstância e continuidades familiares. Essa leitura da estrutura não quer dizer que as experiências dos dois sejam equivalentes.
Na entrevista ao TheWrap, a showrunner descreveu a estrutura como uma conversa urgente entre gerações. A expressão ajuda a compreender a aposta da adaptação: em vez de reservar as consequências para o fim do percurso, a série as mostra enquanto ainda acompanha as condições que contribuíram para produzi-las.
O papel da fotografia: passado e presente não recebem estilos completamente separados
A diferença de décadas poderia ter sido marcada por filtros visuais muito distintos. A equipe fez uma escolha menos óbvia. O diretor de fotografia Florian Hoffmeister contou ao TheWrap que ele e Kogonada concordaram em não separar radicalmente os dois períodos pela aparência das imagens. O objetivo era dar continuidade visual à experiência de Sunja e valorizar os lugares que preservam a memória familiar.
Assim, as mudanças de tempo dependem do contexto, dos personagens, dos espaços e da montagem, não apenas de uma cor escolhida para identificar cada época. É uma decisão estética coerente com a ideia de que acontecimentos antigos continuam presentes na identidade de quem veio depois. Isso é uma interpretação da forma narrativa, sustentada pelas declarações da equipe, e não a afirmação de que cada cena tenha sido concebida do mesmo modo.
A série é menos fiel por abandonar a ordem do livro?
Fidelidade e ordem cronológica não são a mesma questão. O romance constrói a dimensão geracional acompanhando a passagem do tempo; a série produz parte desse efeito por justaposição. As duas estratégias dão destaque a Sunja, à família e ao legado de suas decisões, mas oferecem experiências diferentes de descoberta. Também há escolhas de adaptação além da cronologia, de modo que não seria correto dizer que a televisão apenas embaralha capítulos sem alterar mais nada.
Para acompanhar a história sem se perder, vale distinguir quando um acontecimento se passa de quando ele é mostrado. No livro, esses dois movimentos ficam mais próximos. Na série, a distância entre eles é justamente o recurso que coloca Sunja e Solomon em diálogo. Essa é a razão central da montagem fragmentada de Pachinko.
Fontes e referências
- Hachette Book Group: edição original de Pachinko (2017)
- Apple TV Press: anúncio da primeira temporada
- Apple TV Press: episódios e sinopses
- Apple TV Press: histórias paralelas da segunda temporada
- TheWrap: entrevista com Soo Hugh sobre a adaptação
- ELLE: Soo Hugh explica as linhas temporais
- TheWrap: Florian Hoffmeister comenta a fotografia





