Animes22/10/2026Jeferson Dantas6 min de leitura

PLUTO é remake de Astro Boy? Entenda Gesicht e as adaptações

PLUTO reinterpreta um arco de Astro Boy criado por Osamu Tezuka, não a franquia inteira. Veja de onde veio Gesicht e como as versões de 1965, 1981, 2003 e 2023 se relacionam.

Ilustração horizontal dividida entre um jovem robô de estilo clássico voando sobre uma cidade alaranjada e um androide detetive de expressão séria diante de uma cidade azulada, conectados por quadros de mangá e película.

PLUTO não é um remake completo de Astro Boy. O mangá de Naoki Urasawa, publicado entre 2003 e 2009, reimagina um arco específico criado por Osamu Tezuka para Astro Boy (Tetsuwan Atom) em 1964 e 1965. O anime PLUTO, lançado pela Netflix em 2023, adapta essa nova versão do mangá. A conexão é direta, mas cada obra conta sua própria versão da história.

A mudança mais visível está no ponto de vista: no arco de Tezuka, Atom é o centro da aventura contra o poderoso robô Pluto; em PLUTO, a investigação é conduzida principalmente por Gesicht, detetive robótico da Europol. Gesicht não foi criado por Urasawa. Ele já participava do relato original e ganhou muito mais espaço na releitura.

O arco original de Astro Boy veio antes de PLUTO

Tezuka lançou Tetsuwan Atom como série de mangá em 1952, depois de apresentar o personagem em Atom Taishi em 1951. A primeira série animada de Astro Boy começou em 1963. Dentro desse universo, o autor publicou na revista japonesa Shōnen, de 1964 a 1965, a história inicialmente chamada Shijō Saidai no Robot, cujo título pode ser entendido como 'O maior robô da história'. Ao sair em volume em maio de 1965, ela foi renomeada Chijō Saidai no Robot, conhecida internacionalmente como The Greatest Robot on Earth.

Na trama original, Pluto é enviado para enfrentar alguns dos robôs mais poderosos do mundo e provar sua superioridade. Atom precisa lidar com essa ameaça, enquanto a história questiona a lógica de transformar seres inteligentes em instrumentos de combate. O detetive alemão Gesicht, assim como Montblanc, North No. 2, Brando, Hercules e Epsilon, já aparece nesse arco. A base dos personagens, portanto, veio de Tezuka, não de uma criação isolada do anime recente.

Linha do tempo: seis versões e momentos que costumam ser confundidos

A cronologia abaixo segue o histórico publicado pelo site japonês da produção de PLUTO. Ela reúne publicações e exibições relacionadas ao mesmo arco, mas não descreve uma continuidade ficcional única.

Período Obra e formato O que aconteceu
1964 a 1965 Astro Boy, mangá de Tezuka Publicação do arco originalmente intitulado Shijō Saidai no Robot; renomeado Chijō Saidai no Robot em maio de 1965.
24 de abril e 1º de maio de 1965 Astro Boy de 1963, anime Exibição do arco em duas partes na primeira série televisiva.
18 e 25 de março de 1981 Astro Boy de 1980, anime Nova versão animada do arco, em duas partes, dentro da segunda série de TV.
3 e 10 de agosto de 2003 Astro Boy de 2003, anime A terceira série de TV revisita o material em dois episódios com títulos japoneses próprios.
Setembro de 2003 a 2009 PLUTO, mangá Urasawa reconta e amplia a história de Tezuka com o detetive Gesicht em destaque.
26 de outubro de 2023 PLUTO, anime da Netflix Estreia da adaptação animada do mangá de Urasawa, com oito episódios.

Há um detalhe importante em 2003: a nova série animada de Astro Boy apresentou sua versão da história em agosto, enquanto o mangá PLUTO começou a publicação em setembro. São produções distintas que recorrem ao mesmo material de Tezuka. Uma não deve ser apresentada como adaptação da outra.

Quem é Gesicht e por que ele virou protagonista?

Gesicht é um robô investigador alemão associado à polícia europeia. Na história original de Tezuka, ele é um dos robôs envolvidos no conflito com Pluto e tem participação secundária em relação a Atom. Por isso, a ideia de que Urasawa inventou Gesicht exclusivamente para sua série está errada.

Na releitura, Gesicht passa a organizar a narrativa. Ele investiga a destruição de robôs avançados e assassinatos de pessoas ligadas às leis robóticas. A própria condição de investigador e de possível alvo aproxima o leitor das perguntas centrais do suspense: quem está por trás dos crimes, como humanos e máquinas convivem e que marcas a violência deixa em seres capazes de sentir?

O site oficial do anime descreve Gesicht como um agente especial da Europol com corpo feito de uma liga de zerônio, equipamentos de investigação e pesadelos recorrentes. Essas características ajudam a entender por que a versão de Urasawa dedica espaço à sua identidade e à sua vida fora dos casos. Atom continua essencial, mas já não monopoliza a perspectiva da história.

O que muda de Astro Boy para PLUTO?

Aspecto Arco de Tezuka Releitura de Urasawa
Ponto de vista Atom ocupa o papel principal no embate com Pluto. Gesicht conduz boa parte da investigação; Atom conserva importância decisiva.
Estrutura O confronto entre robôs de grande poder move a narrativa. Os ataques são tratados como um mistério investigado ao longo de uma história mais extensa.
Personagens Gesicht e outros robôs aparecem no arco original. Os mesmos nomes ganham maior desenvolvimento individual e relações mais detalhadas.
Temas A guerra, a obediência e a inutilidade da violência já estão presentes. A releitura expande essas questões por meio de memórias, preconceito, luto e coexistência entre humanos e robôs.

A diferença de tom não significa que Tezuka escreveu uma história desprovida de crítica ou emoção. Na apresentação oficial do arco, a produção ressalta que Pluto é um personagem trágico, obrigado a combater por ordens que não escolheu. Em entrevista publicada no site de PLUTO, Urasawa contou que a tristeza da história original o marcou na infância, especialmente porque vencer a luta não apagava o sofrimento provocado por ela.

Assim, chamar PLUTO de 'remake' pode funcionar em sentido amplo, mas a descrição mais precisa é reinterpretação de um arco específico de Astro Boy. O mangá mantém personagens e ideias fundamentais e constrói outra abordagem, sem recontar toda a franquia do começo.

O anime de 2023 adapta qual obra?

A série lançada pela Netflix em 26 de outubro de 2023 adapta o mangá PLUTO de Urasawa, desenvolvido com Takashi Nagasaki e a supervisão de Macoto Tezka, em cooperação com a Tezuka Productions. A animação foi realizada pelo Studio M2, com produção da GENCO. A ficha brasileira da Netflix lista oito episódios.

Não se trata da quarta temporada de Astro Boy, de uma continuação dos desenhos de 1965, 1981 ou 2003, nem de uma adaptação animada direta do arco original sem o trabalho intermediário de Urasawa. O caminho da adaptação é: história de Tezuka, mangá PLUTO, anime PLUTO. As versões animadas anteriores de Astro Boy formam outros ramos dessa árvore.

Preciso assistir a Astro Boy antes de PLUTO?

Não. A série de 2023 apresenta sua própria investigação e fornece contexto para Gesicht, Atom e os demais personagens. Conhecer Astro Boy ajuda a perceber as mudanças de perspectiva, mas não é um requisito narrativo para acompanhar o anime.

Para comparar as obras sem confundir suas continuidades, há uma ordem especialmente útil:

  1. Leia primeiro o arco The Greatest Robot on Earth de Tezuka para conhecer o conflito original e o papel de Atom.
  2. Depois, leia o mangá PLUTO, publicado entre 2003 e 2009, observando como Gesicht se torna o eixo da história.
  3. Por fim, assista ao anime PLUTO de 2023 e, se houver interesse, compare separadamente os episódios de Astro Boy exibidos em 1965, 1981 e 2003.

Essa ordem é uma sugestão de comparação histórica, não uma sequência obrigatória de acontecimentos dentro do mesmo universo. As diferentes adaptações podem compartilhar personagens e ideias sem serem capítulos consecutivos de uma única linha do tempo.

Fontes e referências

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