Música21/10/2026Jeferson Dantas5 min de leitura

Radiohead: por que Morning Bell muda tanto entre Kid A e Amnesiac?

As duas gravações de Morning Bell vieram da mesma fase criativa do Radiohead, mas têm compassos e arranjos distintos. Entenda o relato de Phil Selway, a cronologia e a edição Kid A Mnesia.

Colagem editorial horizontal com os cinco integrantes do Radiohead, Thom Yorke ao centro, montanhas azuladas à esquerda, painel vermelho à direita, títulos Kid A e Amnesiac e ondas sonoras na parte inferior.

“Morning Bell” aparece em Kid A (2000) e Amnesiac (2001) porque o Radiohead chegou a dois arranjos bastante diferentes da mesma canção durante uma fase de gravações compartilhada. Não é uma faixa repetida sem alteração nem simplesmente um remix: a pulsação, a instrumentação e o clima musical mudam. A ordem ainda guarda uma surpresa. Segundo o baterista Philip Selway, a gravação que acabou em Amnesiac veio antes daquela lançada em Kid A.

A comparação ajuda a entender o método do grupo na passagem dos anos 1990 para os 2000: conservar uma ideia central e transformá-la à medida que cada integrante propunha outro caminho. O fato de a versão mais tardia na gravação ter chegado primeiro às lojas costuma inverter a percepção dessa história.

Qual versão veio primeiro? Gravação e lançamento seguem ordens diferentes

Kid A foi lançado em 2 de outubro de 2000 e trouxe “Morning Bell” como nona faixa. Amnesiac chegou em junho de 2001 com “Morning Bell/Amnesiac” na sétima posição. A discografia da XL Recordings preserva os dois títulos e identifica durações diferentes, respectivamente 4min35s e 3min14s. Portanto, a versão de Kid A foi a primeira publicada.

Na entrevista concedida a Nick Zanca para o Reverb, publicada em 11 de abril de 2023, Selway inicialmente se confundiu sobre a ordem, mas corrigiu a própria resposta: afirmou que a versão em 5/4 de Kid A veio em segundo lugar na gravação e que o registro anterior foi o utilizado em Amnesiac. Ele também disse que partiu dele a sugestão de transformar a música em 5/4, acompanhada por uma levada de bateria que já tinha em mente.

Há uma ressalva documental: numa reportagem de David Fricke publicada pela Rolling Stone em 2001, reproduzida em arquivo, a cronologia é apresentada ao contrário, com a tomada de Kid A associada às sessões em Copenhague e uma nova gravação destinada a Amnesiac. Como os relatos divergem, o mais preciso é atribuir a Selway a ordem de gravação, sem tratá-la como uma datação de estúdio incontestável. A ordem dos lançamentos, por outro lado, está bem documentada.

O que muda de uma “Morning Bell” para a outra?

A diferença mais objetiva é o compasso. Em 5/4, cada ciclo de Kid A tem cinco tempos; na releitura de Amnesiac, o padrão é de 4/4, com quatro. Para quem não lê partitura, a mudança se percebe na maneira como o ritmo volta ao começo e em como a linha vocal se encaixa nele. O contraste vai além da contagem.

Aspecto Kid A (2000) Amnesiac (2001)
Título na lista oficial Morning Bell Morning Bell/Amnesiac
Posição e duração Faixa 9, 4min35s Faixa 7, 3min14s
Compasso 5/4, cinco tempos por compasso 4/4, quatro tempos por compasso
Ritmo e arranjo Batida de bateria insistente, teclados e tensão crescente Pulso menos marcado, teclados e sonoridades que evocam sinos
Efeito geral Movimento contínuo e sensação de urgência Atmosfera mais suspensa e cerimonial

Na descrição de Niall Doherty para a Louder, a faixa de Kid A combina uma bateria rápida e insistente com acordes de teclado e um vocal mais contido. A leitura de Amnesiac reorganiza o espaço entre os sons; a Pitchfork, ao revisitar o disco em 2009, chamou atenção para o peso de suas texturas tonais. Expressões como “urgente” ou “cerimonial” são descrições de efeito sonoro, não informações sobre uma intenção secreta dos músicos.

Por que o Radiohead manteve as duas versões?

Selway explicou ao Reverb que a troca de compasso teve consequências para todos os integrantes: quando alguém modificava a proposta, os demais reagiam de modo diferente, e a composição ganhava outra identidade. Na visão do baterista, a ideia principal permaneceu, mas a mudança fez a música parecer, em certos aspectos, outra canção. Isso ajuda a explicar por que um único arranjo não precisava substituir o outro.

Existe ainda uma pista sobre a decisão de publicar a reprise. Segundo uma resposta de Thom Yorke de 2001 preservada pelo arquivo independente Citizen Insane, o grupo havia esquecido uma das versões, reencontrou-a por acaso e achou que funcionava como um sonho recorrente. É um relato atribuído ao músico por uma transcrição de arquivo, não uma prova de que as duas gravações contem uma história literal ou de que uma delas seja a “correta”.

E a terceira “Morning Bell” de Kid A Mnesia?

Em 2021, a edição KID A MNESIA reuniu os dois álbuns e material extra daquelas sessões. Além das faixas de 2000 e 2001, a lista oficial inclui “The Morning Bell (In the Dark Version)”, com 2 minutos, no disco de extras Kid Amnesiae. Trata-se de outro registro apresentado na coleção, e não de uma substituição retroativa das versões originais.

Para perceber a transformação, uma sequência prática é ouvir a nona faixa de Kid A e depois a sétima de Amnesiac, prestando atenção primeiro à contagem da bateria e, em seguida, à densidade dos teclados. Essa é a ordem de lançamento. Para a ordem de gravação, a referência é o depoimento de Selway, com a divergência histórica já apontada.

Fontes e referências

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