The Last of Us retirou os esporos da primeira temporada para evitar que a ameaça estivesse permanentemente no ar e para criar uma forma de transmissão mais física e visual: os tentáculos do fungo, conhecidos como tendrils. Na segunda temporada, os esporos aparecem em condições específicas, dentro de um ambiente subterrâneo isolado, porque cumprem uma função decisiva na história de Ellie. Não se trata de apagar os tentáculos nem de voltar integralmente às regras dos jogos.
Aviso: spoilers leves das temporadas 1 e 2, especialmente do episódio 5 da segunda temporada.
Nos jogos, os esporos tornam certos lugares perigosos de respirar
No The Last of Us original, lançado em 2013, e em The Last of Us Part II, de 2020, o Cordyceps pode ser transmitido por ataques de infectados e pela inalação de esporos presentes em áreas contaminadas. Nesses ambientes, personagens vulneráveis precisam de máscaras de proteção. O perigo depende do lugar: os jogos não apresentam todos os espaços abertos como uma nuvem de esporos.
Essa regra também oferece um recurso narrativo. Ao atravessar áreas contaminadas sem sofrer os efeitos da infecção, Ellie torna sua imunidade visível para quem a acompanha. Não basta o público saber que ela é imune; outros personagens podem constatar o fato diante dos próprios olhos.
Por que a primeira temporada escolheu os tentáculos?
Na adaptação da HBO, a equipe optou por não estabelecer desde o começo ambientes cheios de partículas infecciosas. Um dos problemas era televisivo: se a contaminação pelo ar fosse disseminada, os personagens teriam de usar máscaras com muita frequência, escondendo parte das expressões dos atores. Craig Mazin também questionou a lógica de espalhar esporos pelo mundo sem tornar a exposição quase inevitável.
Os tentáculos deram à série outra linguagem de horror. Filamentos que saem da boca dos infectados podem transmitir o fungo por contato, enquanto uma rede de crescimento fúngico no solo permite alertar infectados distantes. O segundo episódio da primeira temporada apresenta essa conexão. A rede subterrânea e os filamentos de contato são funções relacionadas ao fungo, mas não devem ser confundidos com transmissão aérea.
Em entrevista ao The Washington Post, publicada em janeiro de 2023, Mazin explicou que buscava uma transmissão diferente da mordida convencional. O visual dos filamentos foi desenvolvido com referências à biologia dos fungos e, segundo ele, com imagens de queimaduras de águas-vivas enviadas pela diretora Jasmila Žbanić. Na mesma conversa, o criador deixou aberta a possibilidade de apresentar esporos no futuro. Portanto, a primeira temporada não estabeleceu uma proibição definitiva dentro do universo da série.
O que muda quando os esporos surgem na segunda temporada?
Os esporos entram efetivamente na narrativa televisiva no episódio 5 da segunda temporada, Feel Her Love, exibido em 2025. Em Seattle, a WLF (Frente de Libertação de Washington) descobre que uma área inferior do Hospital Lakehill está contaminada pelo ar. Os sobreviventes decidem isolar o acesso. Conforme Craig Mazin explica no podcast oficial da HBO, o foco identificado fica no nível subterrâneo B2, não em toda a cidade.
A história associa essa descoberta a uma escolha dolorosa: a comandante Elise Park mantém o local fechado mesmo sabendo que o próprio filho está entre os que ficaram isolados. No material de bastidores citado pela GameSpot, Mazin descreve infectados presos ali por anos, respirando e liberando esporos. A contaminação ganha uma origem e um limite dramático compreensíveis, em vez de surgir sem explicação em qualquer rua.
Mais tarde, Ellie persegue Nora até a região contaminada. Nora respira os esporos e espera que Ellie tenha o mesmo destino. Como Ellie continua sem sinais de infecção, Nora entende de imediato que encontrou a jovem imune. Esse reconhecimento é o motivo narrativo central para recuperar o recurso do jogo.
No podcast do episódio, Neil Druckmann esclarece justamente essa necessidade: o roteiro precisava de uma prova rápida e inequívoca para Nora, já que uma mordida não demonstraria a imunidade de Ellie instantaneamente. Mazin acrescenta que os roteiristas procuraram um lugar onde os esporos fossem plausíveis e mais ameaçadores. Em entrevista à Inverse, em março de 2025, ele já antecipava que a volta teria uma justificativa ligada ao enredo e afetaria uma relação entre personagens.
Esporos, tentáculos e imunidade: comparação entre versões
| Versão | Como funciona a ameaça | Função na narrativa |
|---|---|---|
| Jogos The Last of Us e Part II | Mordidas e esporos em áreas contaminadas; máscaras são necessárias nesses locais. | Os esporos permitem mostrar a imunidade de Ellie e criam riscos durante a exploração. |
| Série, temporada 1 (2023) | Mordidas, filamentos de contato e conexões fúngicas subterrâneas; os esporos não são usados como ameaça ambiental. | Aumenta a ameaça de contato e permite filmar rostos sem máscaras recorrentes. |
| Série, temporada 2 (2025) | Os tentáculos continuam existindo; esporos também aparecem em um foco fechado no subsolo do hospital. | O encontro com Nora usa a exposição aos esporos para evidenciar imediatamente a imunidade de Ellie. |
O retorno dos esporos contradiz a primeira temporada?
Não necessariamente. A primeira temporada mostrou principalmente outras formas de propagação do Cordyceps, enquanto a segunda revela uma condição específica que ainda não havia sido encontrada pelos protagonistas. Isso não demonstra que agora todas as áreas abertas sejam perigosas para respirar, tampouco que a rede de filamentos tenha desaparecido.
A mudança de ênfase pode ser lida como uma escolha de adaptação: primeiro, a série apresenta um mecanismo visual próprio; depois, recupera uma característica dos jogos quando ela se torna indispensável para uma cena entre Ellie e Nora. Essa interpretação acompanha as explicações de Mazin e Druckmann, sem transformar a decisão criativa em uma suposta descoberta científica sobre fungos reais.
Fontes e referências
- The Washington Post: entrevista de Elise Favis com Craig Mazin (2023)
- Inverse: entrevista de Dais Johnston com Craig Mazin e Neil Druckmann (2025)
- Inverse: análise de Dais Johnston sobre a volta dos esporos (2025)
- HBO: podcast oficial do episódio 5 da segunda temporada (2025)
- GameSpot: explicações dos criadores sobre o episódio 5 (2025)
- Sky: resumo do episódio 5 da segunda temporada





