Uma gravação de Arirang realizada nos Estados Unidos em 24 de julho de 1896 ajudou a inspirar o conceito de ARIRANG, quinto álbum de estúdio do BTS. Bang Si-hyuk, produtor executivo do projeto e fundador da HYBE, contou que encontrou a história de jovens coreanos registrando sua música longe de casa e viu nela um paralelo com os sete integrantes retornando aos palcos globais. A ligação criativa é relatada pelo produtor e reconhecida pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que conserva os registros.
Há uma diferença histórica essencial: sete jovens aparecem na reportagem de época e na reimaginação promovida pelo BTS, mas apenas três cantores estão identificados nas gravações conservadas. Separar o grupo mencionado em 1896 dos participantes da sessão impede transformar uma metáfora do álbum em afirmação documental imprecisa.
Lançado em 20 de março de 2026, ARIRANG tem 14 faixas, segundo a BIGHIT MUSIC. O interesse por 1896 ajuda a explicar por que o grupo escolheu o nome da canção tradicional, mas não significa que todos os sons do disco tenham vindo daquele arquivo.
Por que Bang Si-hyuk associou a gravação ao retorno do BTS?
Em entrevista concedida à jornalista Leila Cobo, da Billboard, publicada em abril de 2026, Bang afirmou ter conhecido o relato histórico durante a preparação do novo álbum. A produção foi organizada ao longo de 2025, enquanto os músicos encerravam o serviço militar obrigatório e retomavam o trabalho coletivo. Para o produtor, a experiência de coreanos tentando se expressar musicalmente em outro país lembrava a situação de um grupo que começou na Coreia do Sul e precisou construir sua identidade diante de um público internacional.
Bang usou a ideia de diáspora como leitura criativa dessa aproximação. Não se trata de demonstrar que o BTS viveu as mesmas circunstâncias dos estudantes do século XIX. Trata-se de explicar a escolha artística: uma canção associada a separação, pertencimento e reencontro oferecia linguagem para falar do retorno de sete artistas depois de um período de afastamento das atividades em conjunto.
O próprio produtor atribuiu a si a proposta de usar Arirang como conceito central. Já RM, em declaração divulgada pela gravadora e repercutida pela Yonhap, associou a identidade coreana às raízes compartilhadas pelos sete integrantes, defendendo uma interpretação contemporânea, sem tratar elementos tradicionais como adereços obrigatórios.
Sete jovens na história, três vozes nos cilindros: o que está documentado?
A Biblioteca do Congresso identifica a sessão de 24 de julho de 1896, realizada em Washington, D.C., pela antropóloga e etnóloga norte-americana Alice Cunningham Fletcher. Ela utilizou cilindros de cera, suporte de gravação sonora anterior aos formatos de disco que se popularizariam depois. Seis cilindros preservam canções interpretadas por estudantes coreanos e integram hoje a coleção do American Folklife Center.
O arquivo identifica três cantores, cujos nomes aparecem com diferentes romanizações: Jeong-sik Ahn, He Chel Ye e Son Rong. Entre o material conservado existem três registros de Arirang, incluindo um trecho de cerca de dez segundos que pode ser uma tentativa de gravação interrompida. O acervo os descreve como os mais antigos registros sonoros conhecidos de música coreana, uma formulação de natureza arquivística, não uma declaração de que a canção nasceu em 1896.
De onde, então, saíram os sete? O curta animado de divulgação do BTS menciona uma notícia do The Washington Post de 8 de maio de 1896, intitulada Seven Koreans at Howard, e especifica que alguns daqueles jovens participaram das primeiras gravações conhecidas de vozes coreanas. O vídeo reimagina os sete integrantes do BTS nesse contexto. A reportagem antiga sobre sete pessoas e os registros de três cantores são evidências relacionadas, mas não equivalentes.
Os diferentes documentos de 1896 não são a mesma gravação
Outra confusão surge porque 1896 também é o ano em que Homer B. Hulbert publicou uma transcrição em notação musical de uma versão da canção, identificada como A-ra-rúng, na revista The Korean Repository. O trabalho de Hulbert é um documento escrito, enquanto Fletcher produziu registros de áudio em cilindros de cera. Um estudo de Yu Daean, publicado em 2015 e descrito no Korea Citation Index, compara essas duas fontes históricas e suas características musicais.
Portanto, falar em 'primeiro Arirang de 1896' exige indicar o objeto: partitura impressa, reportagem sobre estudantes coreanos ou gravação sonora. Essas evidências ajudam a documentar a circulação da música no fim do século XIX, mas nenhuma delas fixa o momento em que a tradição oral começou.
| Data | Documento ou acontecimento | O que confirma |
|---|---|---|
| 1896 | Homer B. Hulbert publica a notação de A-ra-rúng | Registro escrito de uma versão da melodia, não áudio. |
| 8 de maio de 1896 | The Washington Post publica Seven Koreans at Howard | Referência histórica ao grupo de sete jovens. |
| 24 de julho de 1896 | Alice C. Fletcher realiza gravações em Washington | Cilindros de cera com três cantores identificados. |
| 13 de março de 2026 | BTS divulga teaser animado | Releitura artística da história e dos cilindros. |
| 20 de março de 2026 | BIGHIT MUSIC lança ARIRANG | Álbum de 14 faixas que adota a referência cultural. |
| Abril de 2026 | Bang Si-hyuk explica o conceito à Billboard | Depoimento do produtor sobre a inspiração criativa. |
O que Arirang significa na tradição musical coreana?
Arirang não é uma composição com letra única, autoria individual estabelecida e sentido fixo. A UNESCO descreve uma tradição de canto folclórico transmitida e transformada por gerações, com refrão reconhecível e versos que variam conforme a região e os intérpretes. Sua documentação cita estimativas de cerca de 3.600 variações reunidas em aproximadamente 60 versões. Em 2012, a expressão foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela República da Coreia.
As versões da canção podem falar de partida, saudade, amor, perda, resistência e reencontro. Por isso, uma tradução isolada do título ou do refrão não esgota o significado cultural de Arirang. Bang destacou na entrevista a passagem da tristeza associada à separação para uma energia coletiva de superação, recorrendo a ideias coreanas como han, ligada à dor e à saudade, e heung, relacionada à vitalidade e ao entusiasmo. São conceitos culturais amplos, não equivalências literais universais.
A distinção explica o valor do título para o BTS: o álbum pode recorrer a uma memória comum sem pressupor que exista uma única versão definitiva da música tradicional.
Como a referência aparece no álbum, além do título?
Na entrevista, Bang comenta a presença de um elemento reconhecível de Arirang em Body to Body, inclusive o efeito de ouvir o público cantar a referência coreana em conjunto. Esse é um exemplo musical concreto, distinto da história dos cilindros. As fontes consultadas não demonstram que o áudio original de Fletcher tenha sido usado como sample nessa faixa. Reconhecer a canção tradicional não é o mesmo que identificar a origem material de uma gravação em estúdio.
Há outra referência ao patrimônio sonoro coreano em No. 29. Bang declarou que o interlúdio incorpora o som do Sino Sagrado do Grande Rei Seongdeok, experiência que ele associou a uma visita ao Museu Nacional da Coreia. Seu papel, segundo a explicação do produtor, é criar uma passagem contemplativa entre partes do álbum. O sino e os cilindros de 1896 possuem histórias distintas e não devem ser confundidos.
A apresentação oficial da BIGHIT enfatiza que os integrantes participaram da composição e da produção e que as 14 faixas tratam de suas experiências e identidades. Assim, o repertório moderno, a tradição cantada e a documentação histórica se cruzam no conceito, sem se tornarem uma mesma fonte sonora.
Onde ouvir o Arirang de 1896 e o que ele permite concluir?
O American Folklife Center, ligado à Biblioteca do Congresso, disponibiliza três trechos de Arirang da coleção Fletcher em sua reportagem sobre o BTS. A Universidade de Indiana também descreve uma reprodução posterior do material, registrada em seu acervo de música tradicional. Já o Korea JoongAng Daily documentou a exposição de réplicas e o acesso a cópias digitais em museus sul-coreanos.
Ouvir esses registros permite conhecer vozes coreanas documentadas em 1896 e perceber a existência de versões antigas do canto. A comparação com o álbum de 2026 pode revelar aproximações de repertório ou intenção, mas não prova, por si só, o uso técnico dos cilindros como fonte de áudio. O elo comprovado entre os dois momentos é a inspiração histórica declarada por Bang e desenvolvida na apresentação artística do BTS.
Fontes e referências
- BIGHIT MUSIC: apresentação oficial do álbum ARIRANG
- BIGHIT MUSIC: comunicado de lançamento no Weverse
- Billboard Korea: entrevista com Bang Si-hyuk
- Billboard, por Leila Cobo: reprodução integral da entrevista com Bang Si-hyuk
- Biblioteca do Congresso dos EUA: cilindros de 1896 e ligação com o BTS
- Universidade de Indiana: ficha histórica dos cilindros de Arirang
- UNESCO: Arirang, canto folclórico lírico da República da Coreia
- Korea Citation Index: resumo do estudo de Yu Daean sobre Hulbert e Fletcher
- Korea JoongAng Daily: reportagem sobre o acervo e as cópias dos cilindros
- Yonhap: declarações de RM e do BTS sobre identidade coreana





