Música21/10/2026Jeferson Dantas7 min de leitura

ARIRANG do BTS: como uma gravação de 1896 inspirou o álbum

A história de uma gravação de Arirang feita em 1896 nos Estados Unidos ajudou Bang Si-hyuk a conceber o retorno do BTS. Entenda o que o acervo comprova, por que se fala em sete jovens e quais foram os três cantores registrados.

Ilustração de sete jovens artistas em trajes inspirados na tradição coreana, com um fonógrafo antigo emitindo ondas douradas diante de montanhas e pavilhões.

Uma gravação de Arirang realizada nos Estados Unidos em 24 de julho de 1896 ajudou a inspirar o conceito de ARIRANG, quinto álbum de estúdio do BTS. Bang Si-hyuk, produtor executivo do projeto e fundador da HYBE, contou que encontrou a história de jovens coreanos registrando sua música longe de casa e viu nela um paralelo com os sete integrantes retornando aos palcos globais. A ligação criativa é relatada pelo produtor e reconhecida pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que conserva os registros.

Há uma diferença histórica essencial: sete jovens aparecem na reportagem de época e na reimaginação promovida pelo BTS, mas apenas três cantores estão identificados nas gravações conservadas. Separar o grupo mencionado em 1896 dos participantes da sessão impede transformar uma metáfora do álbum em afirmação documental imprecisa.

Lançado em 20 de março de 2026, ARIRANG tem 14 faixas, segundo a BIGHIT MUSIC. O interesse por 1896 ajuda a explicar por que o grupo escolheu o nome da canção tradicional, mas não significa que todos os sons do disco tenham vindo daquele arquivo.

Por que Bang Si-hyuk associou a gravação ao retorno do BTS?

Em entrevista concedida à jornalista Leila Cobo, da Billboard, publicada em abril de 2026, Bang afirmou ter conhecido o relato histórico durante a preparação do novo álbum. A produção foi organizada ao longo de 2025, enquanto os músicos encerravam o serviço militar obrigatório e retomavam o trabalho coletivo. Para o produtor, a experiência de coreanos tentando se expressar musicalmente em outro país lembrava a situação de um grupo que começou na Coreia do Sul e precisou construir sua identidade diante de um público internacional.

Bang usou a ideia de diáspora como leitura criativa dessa aproximação. Não se trata de demonstrar que o BTS viveu as mesmas circunstâncias dos estudantes do século XIX. Trata-se de explicar a escolha artística: uma canção associada a separação, pertencimento e reencontro oferecia linguagem para falar do retorno de sete artistas depois de um período de afastamento das atividades em conjunto.

O próprio produtor atribuiu a si a proposta de usar Arirang como conceito central. Já RM, em declaração divulgada pela gravadora e repercutida pela Yonhap, associou a identidade coreana às raízes compartilhadas pelos sete integrantes, defendendo uma interpretação contemporânea, sem tratar elementos tradicionais como adereços obrigatórios.

Sete jovens na história, três vozes nos cilindros: o que está documentado?

A Biblioteca do Congresso identifica a sessão de 24 de julho de 1896, realizada em Washington, D.C., pela antropóloga e etnóloga norte-americana Alice Cunningham Fletcher. Ela utilizou cilindros de cera, suporte de gravação sonora anterior aos formatos de disco que se popularizariam depois. Seis cilindros preservam canções interpretadas por estudantes coreanos e integram hoje a coleção do American Folklife Center.

O arquivo identifica três cantores, cujos nomes aparecem com diferentes romanizações: Jeong-sik Ahn, He Chel Ye e Son Rong. Entre o material conservado existem três registros de Arirang, incluindo um trecho de cerca de dez segundos que pode ser uma tentativa de gravação interrompida. O acervo os descreve como os mais antigos registros sonoros conhecidos de música coreana, uma formulação de natureza arquivística, não uma declaração de que a canção nasceu em 1896.

De onde, então, saíram os sete? O curta animado de divulgação do BTS menciona uma notícia do The Washington Post de 8 de maio de 1896, intitulada Seven Koreans at Howard, e especifica que alguns daqueles jovens participaram das primeiras gravações conhecidas de vozes coreanas. O vídeo reimagina os sete integrantes do BTS nesse contexto. A reportagem antiga sobre sete pessoas e os registros de três cantores são evidências relacionadas, mas não equivalentes.

Os diferentes documentos de 1896 não são a mesma gravação

Outra confusão surge porque 1896 também é o ano em que Homer B. Hulbert publicou uma transcrição em notação musical de uma versão da canção, identificada como A-ra-rúng, na revista The Korean Repository. O trabalho de Hulbert é um documento escrito, enquanto Fletcher produziu registros de áudio em cilindros de cera. Um estudo de Yu Daean, publicado em 2015 e descrito no Korea Citation Index, compara essas duas fontes históricas e suas características musicais.

Portanto, falar em 'primeiro Arirang de 1896' exige indicar o objeto: partitura impressa, reportagem sobre estudantes coreanos ou gravação sonora. Essas evidências ajudam a documentar a circulação da música no fim do século XIX, mas nenhuma delas fixa o momento em que a tradição oral começou.

Data Documento ou acontecimento O que confirma
1896 Homer B. Hulbert publica a notação de A-ra-rúng Registro escrito de uma versão da melodia, não áudio.
8 de maio de 1896 The Washington Post publica Seven Koreans at Howard Referência histórica ao grupo de sete jovens.
24 de julho de 1896 Alice C. Fletcher realiza gravações em Washington Cilindros de cera com três cantores identificados.
13 de março de 2026 BTS divulga teaser animado Releitura artística da história e dos cilindros.
20 de março de 2026 BIGHIT MUSIC lança ARIRANG Álbum de 14 faixas que adota a referência cultural.
Abril de 2026 Bang Si-hyuk explica o conceito à Billboard Depoimento do produtor sobre a inspiração criativa.

O que Arirang significa na tradição musical coreana?

Arirang não é uma composição com letra única, autoria individual estabelecida e sentido fixo. A UNESCO descreve uma tradição de canto folclórico transmitida e transformada por gerações, com refrão reconhecível e versos que variam conforme a região e os intérpretes. Sua documentação cita estimativas de cerca de 3.600 variações reunidas em aproximadamente 60 versões. Em 2012, a expressão foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela República da Coreia.

As versões da canção podem falar de partida, saudade, amor, perda, resistência e reencontro. Por isso, uma tradução isolada do título ou do refrão não esgota o significado cultural de Arirang. Bang destacou na entrevista a passagem da tristeza associada à separação para uma energia coletiva de superação, recorrendo a ideias coreanas como han, ligada à dor e à saudade, e heung, relacionada à vitalidade e ao entusiasmo. São conceitos culturais amplos, não equivalências literais universais.

A distinção explica o valor do título para o BTS: o álbum pode recorrer a uma memória comum sem pressupor que exista uma única versão definitiva da música tradicional.

Como a referência aparece no álbum, além do título?

Na entrevista, Bang comenta a presença de um elemento reconhecível de Arirang em Body to Body, inclusive o efeito de ouvir o público cantar a referência coreana em conjunto. Esse é um exemplo musical concreto, distinto da história dos cilindros. As fontes consultadas não demonstram que o áudio original de Fletcher tenha sido usado como sample nessa faixa. Reconhecer a canção tradicional não é o mesmo que identificar a origem material de uma gravação em estúdio.

Há outra referência ao patrimônio sonoro coreano em No. 29. Bang declarou que o interlúdio incorpora o som do Sino Sagrado do Grande Rei Seongdeok, experiência que ele associou a uma visita ao Museu Nacional da Coreia. Seu papel, segundo a explicação do produtor, é criar uma passagem contemplativa entre partes do álbum. O sino e os cilindros de 1896 possuem histórias distintas e não devem ser confundidos.

A apresentação oficial da BIGHIT enfatiza que os integrantes participaram da composição e da produção e que as 14 faixas tratam de suas experiências e identidades. Assim, o repertório moderno, a tradição cantada e a documentação histórica se cruzam no conceito, sem se tornarem uma mesma fonte sonora.

Onde ouvir o Arirang de 1896 e o que ele permite concluir?

O American Folklife Center, ligado à Biblioteca do Congresso, disponibiliza três trechos de Arirang da coleção Fletcher em sua reportagem sobre o BTS. A Universidade de Indiana também descreve uma reprodução posterior do material, registrada em seu acervo de música tradicional. Já o Korea JoongAng Daily documentou a exposição de réplicas e o acesso a cópias digitais em museus sul-coreanos.

Ouvir esses registros permite conhecer vozes coreanas documentadas em 1896 e perceber a existência de versões antigas do canto. A comparação com o álbum de 2026 pode revelar aproximações de repertório ou intenção, mas não prova, por si só, o uso técnico dos cilindros como fonte de áudio. O elo comprovado entre os dois momentos é a inspiração histórica declarada por Bang e desenvolvida na apresentação artística do BTS.

Fontes e referências

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