Filmes21/10/2026Jeferson Dantas6 min de leitura

E.T. (1982): o que mudou na edição de 2002 e por que Spielberg se arrependeu?

Uma comparação das versões de 1982 e 2002 de E.T. - O Extraterrestre, das alterações de efeitos e diálogos ao arrependimento posterior de Steven Spielberg.

Arte editorial noturna com um extraterrestre e um menino quase tocando as pontas dos dedos diante de uma lua cheia; ao fundo, figuras com armas e rádios, além de uma bicicleta voadora.

A edição de 2002 de E.T. - O Extraterrestre não é o mesmo corte exibido em 1982. Para o aniversário de 20 anos, Steven Spielberg substituiu digitalmente armas de agentes e policiais por rádios comunicadores na perseguição às crianças, reintegrou duas passagens filmadas e alterou diversos efeitos, diálogos e elementos sonoros. Em 2023, o cineasta disse que retirar as armas havia sido um erro, pois passou a defender que os filmes preservem os sinais da época em que foram feitos.

Para quem quer conhecer o longa como chegou aos cinemas originalmente, a referência é o corte de 1982. A edição comemorativa de 2002 interessa como documento da tentativa de Spielberg de revisar seu próprio trabalho, mas as duas versões não devem ser confundidas com uma simples remasterização de imagem.

O que mudou de 1982 para 2002?

As notas de produção da edição de 20 anos, divulgadas na época e disponíveis no Cinema.com, descrevem a restauração do negativo, o trabalho da Industrial Light & Magic (ILM) e as cenas recuperadas. Entrevistas contemporâneas com Spielberg e a produtora Kathleen Kennedy ajudam a separar as mudanças de conteúdo das melhorias técnicas.

Elemento Versão de 1982 Edição de 2002
Perseguição de bicicleta Agentes e policiais aparecem portando armas de fogo. Em tomadas da perseguição, as armas são substituídas digitalmente por walkie-talkies; parte da montagem envolvendo as armas também muda.
Cena do banheiro O encontro de Elliott e E.T. na banheira não integra o corte original. A sequência filmada e descartada é reincorporada com auxílio de efeitos digitais.
Halloween Há uma passagem mais curta envolvendo a busca de Mary, mãe de Elliott. É recuperada uma passagem em que Mary procura o filho; a cena do feriado fica ampliada.
Rosto e movimento de E.T. Predominam as atuações dos bonecos animatrônicos criados para a produção. Rosto, movimentos labiais e expressões recebem retoques digitais; a corrida do extraterrestre na floresta é refeita em determinadas tomadas.
Cenários e voo de bicicleta Os efeitos fotográficos e a animação correspondem ao acabamento de lançamento. Há ajustes na nave, fundos, nuvens e vento; no voo de Elliott, a capa do figurino ganha movimento digital.
Fala e trilha sonora Na fala do figurino de Halloween, Mary usa o termo inglês terrorist. O termo é trocado por hippie, e a trilha e o som passam por uma nova apresentação multicanal, sem regravação da música de John Williams.

A fala de Halloween citada na tabela corresponde à comparação entre o lançamento cinematográfico original e a revisão de 2002. Algumas cópias domésticas e exibições de outras épocas tiveram diferenças próprias de áudio; por isso, não se deve presumir que todo VHS de E.T. contenha exatamente a mesma fala.

Por que Spielberg mexeu no filme?

As intervenções tinham dois objetivos distintos. Um era recuperar e aperfeiçoar material: o animatrônico concebido por Carlo Rambaldi havia imposto limites a certos gestos, especialmente na cena da banheira. Nas notas de produção, a equipe relata correções de expressões e a reconstrução de movimentos que não funcionavam como o diretor desejava. A ILM também restaurou elementos deteriorados do material original.

Esse trabalho foi maior do que a famosa troca de armas. Em reportagem publicada em março de 2002, o Los Angeles Times registrou que Bill George, supervisor de efeitos da ILM, havia acompanhado a revisão de mais de 140 tomadas. Já Spielberg, falando à WIRED em junho daquele ano, estimou cerca de 55 tomadas com melhorias digitais especificamente no personagem E.T. Os números tratam de recortes diferentes do trabalho, não de uma contagem única e contraditória.

O outro objetivo era reduzir a presença de armas diante de crianças. À época, Spielberg explicou que já se sentia incomodado com a imagem de autoridades apontando armas na perseguição. As notas de produção da reedição citam a mudança de perspectiva que ele associava à paternidade e registram que sua vontade de retirar as armas vinha de anos anteriores ao relançamento. Kathleen Kennedy também apresentou uma justificativa de verossimilhança para a nova abordagem. Essas eram as razões defendidas pela equipe em 2002, não o posicionamento definitivo do diretor.

Quando ele mudou de ideia e por que chamou a alteração de erro?

A mudança de posição é verificável antes de 2023. Em entrevista publicada pelo Ain't It Cool News em 3 de junho de 2011, Spielberg afirmou que deixaria de acrescentar correções digitais a seus filmes e recomendou expressamente ao público que assistisse à versão original de E.T., de 1982. Para ele, imperfeições técnicas também registram o momento histórico de uma produção.

Em 25 de abril de 2023, durante o TIME100 Summit, o diretor foi ainda mais claro: classificou a substituição das armas como um erro e defendeu que obras antigas não sejam refeitas segundo sensibilidades atuais. O arrependimento mencionado nessa fala se referia especificamente à retirada das armas, embora ele também tenha defendido, de maneira mais ampla, o respeito ao arquivo dos filmes.

Isso esclarece uma aparente contradição: em 2002, Spielberg defendia a decisão por considerar a cena inadequada para crianças; em 2011 e 2023, passou a priorizar a preservação do filme como expressão de seu tempo. Não há motivo para tratar o testemunho de 2002 como se já expressasse a opinião de 2023.

Qual versão assistir e como identificá-la?

Escolha 1982 para a primeira sessão ou para rever a montagem que consolidou a obra. Essa preferência coincide com a recomendação pública feita pelo próprio Spielberg em 2011. A versão de 2002 serve a quem deseja comparar experiências de edição, cenas recuperadas e os limites da revisão digital.

O DVD comemorativo lançado nos Estados Unidos em outubro de 2002 chegou em edições que incluíam os dois cortes, conforme cobertura contemporânea da Sound & Vision. Em contrapartida, o comunicado da Universal de maio de 2012 especificou que seu Blu-ray de 30 anos trazia o filme cinematográfico de 1982 restaurado. A Universal anunciou ainda uma edição de 40 anos em 2022 para 4K Ultra HD, Blu-ray e digital, que não deve ser confundida automaticamente com a montagem estendida de 2002.

Na hora de escolher uma cópia, confira a descrição do conteúdo principal e procure expressões como theatrical version, original 1982 version ou 20th Anniversary Edition. O selo “aniversário” sozinho não identifica o corte. Também não é seguro inferir a versão apenas pela duração mostrada por um aplicativo, já que velocidade de reprodução, créditos e fichas de catálogo podem variar. As informações históricas de lançamento mencionadas aqui não equivalem a uma confirmação de disponibilidade atual em serviços brasileiros de streaming.

O caso de E.T. é especialmente revelador porque o mesmo diretor documentou as duas posições: primeiro, usou a tecnologia para tornar o filme mais próximo do que desejava em 2002; depois, concluiu que preservar o corte de 1982 era mais importante do que atualizar seus detalhes.

Fontes e referências

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