O Eternauta não tem três versões equivalentes. A HQ publicada de 1957 a 1959 é a história original, escrita por Héctor Germán Oesterheld e desenhada por Francisco Solano López. Em 1969, Oesterheld recontou essa história com Alberto Breccia, mudando sobretudo a linguagem visual e tornando a crítica política mais direta. Já O Eternauta II, iniciado em 1976, é uma continuação, novamente desenhada por Solano López, e não um terceiro remake.
Para comparar as obras, é preciso distinguir o que cada uma conta, como foi publicada e o contexto argentino em que seus autores trabalharam. As datas de 1957, 1969 e 1976 indicam o início de cada publicação, não três lançamentos completos no mesmo ano. O foco aqui são os quadrinhos, sem misturá-los à adaptação televisiva.
1957, 1969 e 1976: quais são as três obras?
| Publicação | Criação e circulação | O que é | Principal diferença |
|---|---|---|---|
| 1957 a 1959 | Héctor G. Oesterheld e Francisco Solano López; Hora Cero Semanal | História original | Aventura de sobrevivência e resistência coletiva em Buenos Aires |
| 1969 | Oesterheld e Alberto Breccia; revista Gente | Nova versão da história original | Desenho expressionista e crítica política mais explícita; publicação abreviada |
| 1976 a 1978 | Oesterheld e Solano López; publicações da linha Skorpio | Continuação, O Eternauta II | Novo período da narrativa, Juan Salvo transformado e tom político mais radical |
O estudo de Laura Cristina Fernández e Sebastián Horacio Gago, registrado no repositório do CONICET, distingue a primeira parte (1957 a 1959), a releitura de 1969 e a segunda parte (1976 a 1978). Essa separação evita um erro comum: tratar a edição de Breccia como capítulo intermediário obrigatório da aventura de Juan Salvo.
1957 a 1959: uma invasão vista pelas pessoas comuns
Oesterheld e Solano López publicaram a obra original em Hora Cero Semanal, revista da Editorial Frontera. A premissa começa com uma nevasca mortal em Buenos Aires, que surpreende Juan Salvo, sua família e amigos. Eles improvisam formas de proteção e, progressivamente, a sobrevivência dá lugar à resistência contra uma invasão extraterrestre.
A cidade reconhecível, os bairros, os objetos cotidianos e o desenho figurativo de Solano López dão concretude ao desastre. Em vez de apresentar um super-herói que resolve tudo sozinho, a narrativa depende de conhecimento compartilhado, cooperação e decisões tomadas por pessoas comuns. O historiador Hernán Comastri identifica aí a construção do chamado herói coletivo.
Esse primeiro Eternauta já admite leituras políticas, especialmente diante da Guerra Fria e dos conflitos argentinos. Mas reduzir a aventura de 1957 a uma profecia literal sobre a ditadura instaurada em 1976 apagaria sua data e suas circunstâncias de criação. A interpretação política pode ser construída a partir do texto e do período, sem fingir que o autor já conhecia os fatos posteriores.
1969: Breccia transforma a mesma premissa em uma experiência mais sombria
A nova versão saiu na revista Gente, com roteiro de Oesterheld e arte de Alberto Breccia. Não é apenas a história antiga redesenhada. Breccia substituiu a clareza figurativa do original por contrastes intensos, texturas, colagens e soluções expressionistas, tornando a ameaça mais abstrata e opressiva. O roteiro preserva a estrutura central da invasão, mas desloca sua ênfase.
Spoiler pontual da versão de 1969: a releitura explicita mais cedo a participação das grandes potências mundiais em um acordo que sacrifica a América do Sul para preservar a própria segurança. Essa alteração, descrita por Acantilado e discutida por Comastri, torna a crítica ao imperialismo mais direta. O contexto é a Argentina governada pelo regime de Juan Carlos Onganía, enquanto a posição política de Oesterheld se tornava mais militante.
A publicação foi interrompida antes do plano previsto e terminou de maneira acelerada. Há uma nuance importante nas explicações para isso: o pesquisador Pablo Turnes, ao estudar o episódio editorial, atribui papel decisivo à rejeição dos desenhos experimentais por leitores e editores, em vez de afirmar que a censura ao conteúdo político, sozinha, encerrou a série. A curta duração, portanto, não significa que essa seja a continuação da HQ de 1957.
1976 a 1978: a continuação muda Juan Salvo e a ideia de resistência
Aviso de spoilers de O Eternauta II (1976 a 1978): os próximos parágrafos revelam a situação de Juan Salvo e a estrutura geral da sequência, mas não reproduzem seu desfecho completo.
Oesterheld voltou a trabalhar com Francisco Solano López em O Eternauta II. O acervo AHIRA identifica o primeiro episódio em Skorpio Libro de Oro nº 2, de dezembro de 1976; a publicação continuou até 1978. Isso confirma que 1976 é o início da segunda parte, não a data de conclusão da obra.
A ação se desloca para uma Buenos Aires pós-apocalíptica, cerca de duzentos anos depois dos acontecimentos narrados no original, segundo a apresentação de Acantilado. Juan Salvo surge marcado pela viagem temporal, com capacidades extrassensoriais e uma atitude mais dura e messiânica. A história retoma a resistência aos dominadores extraterrestres e acompanha sobreviventes organizados contra a opressão.
Também muda a construção do protagonismo. Enquanto a primeira aventura valoriza a colaboração de pessoas comuns, a sequência concentra mais autoridade em Salvo e amplia seu caráter excepcional. O próprio Oesterheld entra de maneira mais ativa na ficção, entre deslocamentos temporais e uma história em quadrinhos dentro de outra. Comastri interpreta essa transformação como um afastamento parcial do modelo inicial de herói coletivo, não como simples repetição dele.
A comparação exige ainda precisão histórica. A segunda parte começou a ser publicada no ano do golpe militar argentino de março de 1976. Oesterheld escreveu parte dos roteiros na clandestinidade e foi sequestrado e desaparecido pela ditadura em 1977; suas quatro filhas também foram vítimas de desaparecimento forçado. Esse contexto torna a leitura política da continuação especialmente importante, mas não autoriza tratar cada personagem como representação comprovada de uma pessoa real.
O que muda, afinal, e por onde começar a leitura?
Na obra de 1957 a 1959, a força está no grupo que aprende a sobreviver e resistir. Em 1969, a mesma base narrativa ganha uma estética radicalmente diferente e acusações políticas mais explícitas. Entre 1976 e 1978, a história avança de fato, mas com outro cenário, outro Juan Salvo e maior tensão entre liderança individual e luta coletiva. A passagem de uma obra à outra reflete escolhas artísticas e transformações do contexto argentino, sem reduzir as HQs a equivalências automáticas com acontecimentos históricos.
Para acompanhar a continuidade narrativa, comece pelo original de Oesterheld e Solano López e depois leia O Eternauta II. A versão de 1969 pode ser lida após o original como uma releitura comparativa, mas não precisa ser encaixada entre as duas partes como se fosse um episódio de ligação. Reedições em livro podem trazer datas diferentes na capa; os períodos acima dizem respeito à publicação inicial dos quadrinhos.
Fontes e referências
- Acantilado: apresentação das três obras e seus autores
- Modernismo Latinoamericano: estudo de Hernán Comastri sobre O Eternauta
- AHIRA: sumário de Skorpio Libro de Oro nº 2, dezembro de 1976
- Pablo Turnes: El affaire eternauta o los límites de un lenguaje
- CONICET: La saga El Eternauta, modelos de sociedade e discurso
- Escotilha: entrevista com Fabio Bortolazzo sobre a história da HQ





