Quem criou a primeira bomba usada contra a Enigma antes de Alan Turing foi a equipe polonesa liderada por Marian Rejewski. Em 1938, o Escritório de Cifras da Polônia já empregava a bomba kryptologiczna, uma máquina eletromecânica para auxiliar a descoberta de configurações da Enigma. Turing desenvolveu depois, em Bletchley Park, uma Bombe britânica baseada em outra abordagem, com contribuições importantes de Gordon Welchman. As duas não eram o mesmo equipamento.
A história real é mais longa do que a sugerida por O Jogo da Imitação (The Imitation Game, 2014). O filme coloca o trabalho de Turing no centro da narrativa, mas as conquistas britânicas vieram após descobertas polonesas e a cooperação com franceses. Entender essa sequência não diminui Turing: explica de onde partiu seu trabalho e por que houve necessidade de uma máquina nova.
Quem eram Rejewski, Różycki e Zygalski?
Marian Rejewski, Jerzy Różycki e Henryk Zygalski eram matemáticos que trabalharam para o Escritório de Cifras polonês. Eles analisaram a Enigma militar alemã na década de 1930, identificaram aspectos de seu funcionamento interno e desenvolveram técnicas para recuperar configurações usadas nas mensagens. Portanto, os primeiros avanços decisivos ocorreram antes de Turing iniciar o trabalho de guerra em Bletchley Park, em setembro de 1939.
A Enigma não produzia uma simples substituição fixa de letras. Seus rotores mudavam o caminho elétrico a cada tecla pressionada, enquanto os ajustes da máquina criavam muitas possibilidades. O objetivo dos criptoanalistas não era testar cegamente cada combinação, mas explorar propriedades do sistema e práticas operacionais para reduzir a busca.
A bomba polonesa de 1938: o que ela fazia?
A bomba kryptologiczna foi projetada para automatizar parte da busca pelas configurações da Enigma. Ela aproveitava vulnerabilidades do procedimento alemão de transmissão de indicadores, usado para comunicar ajustes de mensagens. O Museu Nacional da Computação britânico destaca que o método se aplicava às práticas mais simples daquele período e que a máquina polonesa era tecnicamente diferente da Bombe de Turing e Welchman.
A palavra “bomba” não se refere aqui a explosivos. Trata-se de um aparelho de criptoanálise. Da mesma forma, descobrir uma configuração não significava decifrar automaticamente todas as mensagens: o trabalho dependia de interceptações, hipóteses corretas, operadores e outras etapas de verificação.
Pyry, julho de 1939: quando o conhecimento mudou de mãos
Em 25 e 26 de julho de 1939, representantes poloneses, franceses e britânicos se reuniram na região de Pyry, perto de Varsóvia. Segundo o GCHQ, órgão de inteligência de sinais britânico, foi nessa reunião que os aliados ocidentais perceberam a profundidade do avanço polonês, incluindo o projeto da bomba eletromecânica. A troca foi decisiva para o rumo da pesquisa britânica.
A Alemanha já havia reforçado a segurança e alterado práticas de uso da Enigma, reduzindo a eficácia de métodos anteriores. O encontro, por isso, não entregou uma solução definitiva. Transferiu conhecimento e encurtou o caminho para enfrentar novos problemas. Em janeiro de 1940, Turing se encontrou em Paris com criptoanalistas poloneses, entre eles Rejewski, que estavam na França após a invasão da Polônia.
A Bombe britânica era uma cópia da polonesa?
Não. A Bombe britânica continuou a tradição de usar mecanismos eletromecânicos para encontrar chaves, mas enfrentou um desafio diferente. Turing explorou os chamados cribs, hipóteses sobre trechos prováveis do texto original, e uma característica da Enigma: uma letra não era cifrada como ela mesma. Com essas relações, a máquina podia eliminar possibilidades incompatíveis.
Gordon Welchman criou uma contribuição técnica importante, o diagonal board, que reduzia falsas possibilidades e ampliava a eficiência. A construção física das Bombes envolveu a British Tabulating Machine Company. O Museu Nacional da Computação registra que a primeira Bombe britânica, chamada Victory, começou a operar em 14 de março de 1940, e que um modelo com a melhoria de Welchman passou a operar em agosto daquele ano. Assim, “bomba polonesa de 1938” e “Bombe britânica de 1940” designam soluções distintas, embora historicamente conectadas.
Linha do tempo: as etapas que o filme comprime
- Década de 1930: Rejewski, Różycki e Zygalski avançam na análise da Enigma militar na Polônia.
- 1938: a equipe polonesa utiliza a bomba eletromecânica para explorar procedimentos de indicadores.
- 25 e 26 de julho de 1939: em Pyry, poloneses compartilham métodos e descobertas com franceses e britânicos.
- Janeiro de 1940: Turing encontra criptoanalistas poloneses na França e aprofunda o intercâmbio técnico.
- Março e agosto de 1940: entram em operação a primeira Bombe britânica e uma versão com a melhoria de Welchman.
O que O Jogo da Imitação altera na percepção dessa história?
O filme de 2014 é uma dramatização biográfica centrada em Turing, interpretado por Benedict Cumberbatch, e não um inventário completo das contribuições aliadas. Ao dedicar pouco espaço ao trabalho anterior dos poloneses, pode deixar a impressão de que a solução nasceu do zero em Bletchley Park. Essa impressão contrasta com os registros do GCHQ e do Museu Nacional da Computação.
Outro exemplo de licença dramática é Alastair Denniston. Retratado como obstáculo ao protagonista, ele foi, segundo texto histórico do próprio GCHQ, responsável por recrutar Turing e por autorizar sua viagem para conversar com os poloneses em 1940. O professor Graham Farr, da Universidade Monash, também ressalta que o filme reúne fatos reais e distorções dramáticas.
A resposta à pergunta, portanto, depende da distinção técnica: Rejewski e os poloneses criaram a bomba pioneira em 1938; Turing, Welchman e equipes britânicas desenvolveram a Bombe de 1940. A quebra das cifras da Enigma foi um processo internacional e coletivo, não o momento isolado de invenção retratado pela lógica de um protagonista de cinema.





