A fotografia em preto e branco que popularizou Plastic Love, de Mariya Takeuchi, não era a capa do single lançado em 1985. O retrato, feito por Alan Levenson, havia sido usado em Sweetest Music, de 1980, e acabou associado à canção por vídeos publicados por fãs no YouTube em 2017. Foi o próprio fotógrafo, e não a gravadora da música, quem apresentou a reivindicação de direitos que levou à retirada temporária de um desses vídeos. A confusão ganhou uma reviravolta documentada: em 2021, a Warner Music Japan adotou oficialmente a imagem na capa de uma nova edição de Plastic Love.
De onde veio o retrato de Mariya Takeuchi?
Em entrevista publicada pela Pitchfork em 18 de maio de 2021, Levenson contou que fotografou Takeuchi para o projeto do álbum Miss M, lançado em 1980. Ele pretendia ver uma das imagens na capa do disco, mas, segundo seu relato, isso não ocorreu. Anos depois, ao procurar o destino da fotografia, soube que o retrato havia aparecido na capa do single Sweetest Music, também de 1980.
Essa origem é confirmada por um documento da própria Warner Music Japan, publicado em 14 de setembro de 2021: a gravadora identifica explicitamente Sweetest Music como o lançamento anterior que utilizou a fotografia. Portanto, a associação visual que parece natural hoje não foi concebida para o lançamento original de Plastic Love. Na mesma entrevista, Levenson afirmou que o trabalho fotográfico havia sido acertado informalmente, sem contrato escrito; esse é o relato do fotógrafo, não uma decisão judicial sobre todas as licenças da época.
O que saiu em 1984 e 1985, antes do vídeo viral?
A gravação de Plastic Love integra Variety, álbum de Mariya Takeuchi lançado originalmente em 1984. A discografia da Warner identifica Takeuchi como autora das composições do álbum e Tatsuro Yamashita como produtor. Em 25 de março de 1985, a faixa ganhou um single japonês de 12 polegadas, identificado pelo catálogo MOON-13002. O lançamento continha uma Extended Club Mix e uma nova remixagem da canção.
A edição de 1985 tinha sua própria apresentação gráfica, distinta do retrato conhecido na internet. É esse o ponto decisivo para responder à pergunta da capa: o público das redes passou a tratar uma fotografia de outro lançamento como se fosse a imagem original da música. Não se trata de uma descoberta tardia de uma capa esquecida de 1985.
Como a fotografia virou a imagem mais conhecida da canção?
Em 2017, um usuário anônimo chamado Plastic Lover publicou no YouTube uma versão alongada de Plastic Love acompanhada do retrato. A circulação ajudou ouvintes fora do Japão a descobrir a canção e o city pop. À Pitchfork, Plastic Lover explicou que já havia encontrado outro vídeo da música nas recomendações da plataforma; depois que aquela publicação desapareceu, decidiu fazer seu próprio envio.
Essa sequência impede atribuir ao canal a invenção de toda a combinação entre áudio e fotografia. O próprio usuário disse não saber quem primeiro reuniu os dois elementos nem de onde veio exatamente a edição estendida que circulava. A difusão por recomendações e compartilhamentos é documentada; qualquer afirmação de que uma única pessoa criou a estética viral seria mais forte do que as fontes permitem.
Quem reivindicou os direitos da foto e por que o vídeo caiu?
Levenson relatou que só percebeu a dimensão da circulação em agosto de 2018, depois de ser procurado pela Sony sobre a possível utilização da foto em um projeto audiovisual. Ao pesquisar a imagem, encontrou o vídeo de Plastic Lover. Segundo seu depoimento, havia divergências sobre a autorização e o preço para novos usos, inclusive em conversas envolvendo gravadoras. Ele procurou registrar os direitos da fotografia e, por orientação jurídica, apresentou uma reclamação de copyright ao YouTube.
A medida provocou a remoção do vídeo em 2018 e uma reação hostil contra o fotógrafo, conforme descreveram ambos à Pitchfork. Mais tarde, com ajuda de intermediários, Levenson concordou em retirar a reclamação mediante crédito por sua imagem, e o vídeo voltou a ficar disponível. A entrevista não apresenta o contrato original da sessão, a documentação completa de eventuais licenças nem uma sentença que estabeleça todos os direitos em disputa. O que ela documenta com clareza é a autoria fotográfica reivindicada por Levenson e sua atuação na retirada e na restauração do vídeo.
É importante separar três coisas. A fotografia é uma obra visual atribuída a Levenson. A composição de Plastic Love tem autoria creditada a Mariya Takeuchi. O fonograma é a gravação comercializada nas edições musicais, com direitos e autorizações próprios. Uma reclamação relacionada à miniatura não demonstra que o fotógrafo controlava a canção, nem que um fã tinha autorização para distribuir o áudio. Também não prova que a gravadora possuía automaticamente todos os direitos da fotografia.
Quando a foto se tornou uma capa oficial de Plastic Love?
Em 14 de setembro de 2021, a Warner Music Japan anunciou que passaria a usar na capa de uma nova edição a fotografia que o público havia associado informalmente à canção. O disco de 12 polegadas foi lançado em 3 de novembro de 2021, com o código WPJL-10152. Assim, dizer que o retrato nunca foi capa oficial seria incorreto: não era a capa original de 1985, mas foi adotado oficialmente em 2021.
Há outra diferença verificável entre as edições. O lado A do disco de 2021 preservou a Extended Club Mix do single anterior, enquanto o lado B passou a trazer a versão original do álbum Variety, substituindo a nova remixagem presente no single de 1985. A documentação da Warner confirma a adoção da foto, mas não divulga os termos contratuais da utilização da imagem. Por isso, a reedição não deve ser apresentada como prova de uma transferência definitiva de direitos fotográficos.





