Ursula K. Le Guin criticou Contos de Terramar (2006) porque considerou que a adaptação trocou a complexidade ética de seus livros por uma narrativa mais violenta, alterou personagens e tratou o equilíbrio entre vida, morte e sombra como lições pouco sustentadas pela ação. Havia ainda uma frustração anterior à estreia: a escritora aceitara o projeto acreditando que Hayao Miyazaki acompanharia seu desenvolvimento, mas o filme acabou dirigido por Gorō Miyazaki sem essa participação, segundo o relato dela.
A discordância está documentada pela própria autora, pelo produtor Toshio Suzuki e pelo diário do diretor. Le Guin reconheceu qualidades visuais no longa e não afirmou que toda adaptação precisaria copiar os romances. Seu ponto central era a distância entre o que a história dos livros significava e o que a versão cinematográfica passou a transmitir.
Da recusa inicial ao acordo com o Studio Ghibli
- Início dos anos 1980: Hayao Miyazaki manifestou interesse em adaptar Terramar. Le Guin recusou porque ainda não conhecia seu trabalho de animação, como explicou posteriormente.
- Anos depois: ao assistir a Meu Amigo Totoro por indicação de Vonda N. McIntyre, a escritora tornou-se admiradora de Miyazaki. Por intermédio da tradutora japonesa Masako Shimizu, sinalizou que aceitaria conversar sobre um filme.
- Durante as negociações: Le Guin pediu cuidado com mudanças radicais e chegou a sugerir uma aventura nova para Ged situada no intervalo entre os dois primeiros livros, como espaço legítimo de liberdade criativa.
- 2005: Suzuki e Hayao visitaram Le Guin e seu filho, ligado à administração dos direitos de Terramar. Segundo a autora, foi explicado que Gorō, então sem experiência na direção de longas, assumiria o filme. Ela concordou com receio, entendendo que Hayao aprovaria o projeto.
- 2006: o longa estreou no Japão em 29 de julho. A autora assistiu a uma sessão privada em 6 de agosto e depois publicou sua análise detalhada.
Há uma divergência documental pequena: Le Guin situou a visita de 2005 em agosto, enquanto Suzuki, em entrevista reproduzida pelo Ghibli, a situou em junho. Mais importante que fixar um mês é distinguir os dois relatos. Suzuki disse que Hayao havia se comprometido a examinar o roteiro, mas que, no fim, não o fez; Le Guin afirmou que percebera a ausência do cineasta no processo e se decepcionara.
O que mudou dos livros para o filme?
O título japonês é Gedo Senki, e o filme foi dirigido por Gorō Miyazaki, com roteiro assinado por ele e Keiko Niwa. Suzuki explicou que a equipe escolheu o terceiro romance, The Farthest Shore, como eixo. A adaptação também incorpora personagens e ideias de outros volumes, sobretudo Tehanu. Isso não equivale a filmar integralmente nenhum dos livros nem a adaptar diretamente a coletânea literária Tales from Earthsea.
| Elemento | Nos livros | No filme de 2006 |
|---|---|---|
| Ged e a sombra | Em A Wizard of Earthsea, a sombra nasce de escolhas de Ged e integra sua trajetória de autoconhecimento. | A ideia de uma sombra ou outro eu reaparece vinculada ao jovem Arren, com explicações distintas. |
| Arren e o conflito | The Farthest Shore acompanha Arren e Ged em uma crise relacionada à magia, à mortalidade e ao desequilíbrio do mundo. | O roteiro altera o histórico de Arren e amplia o peso de sua angústia pessoal e de episódios violentos. |
| Tenar e Therru | A convivência das duas e o cuidado com uma criança ferida são centrais em Tehanu, o quarto romance. | As personagens entram numa trama reorganizada em torno da jornada de Arren. |
| Equilíbrio e morte | O tema emerge das decisões, consequências e limites dos personagens ao longo de histórias extensas. | Para Le Guin, essas ideias são verbalizadas mais diretamente do que demonstradas pela narrativa. |
Por que Le Guin rejeitou a violência e a mensagem moral?
Aviso: os exemplos a seguir revelam um acontecimento do início do filme, sem resumir seu final.
A escritora destacou quatro problemas em seu texto público:
- A motivação de Arren: no filme, o príncipe mata o próprio pai. Le Guin julgou o ato arbitrário e considerou tardia e insuficiente a justificativa ligada à sombra do personagem.
- A sombra deslocada: a autora comparou esse recurso ao primeiro livro, no qual os motivos e o sentido da sombra de Ged são desenvolvidos ao longo da história.
- O mal concentrado num antagonista: na leitura de Le Guin, o feiticeiro Cob/Kumo permite reduzir conflitos éticos a um inimigo a ser eliminado, em contraste com a recusa dos romances a respostas simples sobre bem e mal.
- As falas sobre o equilíbrio: para ela, discursos sobre vida e morte soavam didáticos porque não nasciam organicamente dos atos e das relações entre personagens.
Essas avaliações são da escritora, não uma descrição neutra de como todos devem interpretar o longa. Em um ensaio publicado originalmente na revista Foundation, depois republicado no site The City of Lost Books, o pesquisador que examina o filme propõe uma leitura mais favorável de algumas escolhas de Gorō. A divergência reforça a necessidade de distinguir crítica autoral de fato incontestável sobre o significado da obra.
O que significou a frase 'Não é meu livro. É seu filme'?
Na despedida após a sessão de 6 de agosto, Gorō perguntou se Le Guin gostara do filme. Ela respondeu, em tradução: “Sim. Não é meu livro. É seu filme. É um bom filme.” O diretor registrou a frase em seu diário e disse tê-la recebido com gratidão. Mais tarde, a autora explicou que era uma resposta privada, dada em circunstâncias delicadas, e que não desejava vê-la convertida em declaração pública de aprovação irrestrita.
A sequência dos documentos importa. O diário apresenta a impressão de Gorō naquele encontro; o texto da escritora oferece a avaliação ampliada após a exibição. Interpretar a frase isolada como uma condenação absoluta ou como endosso pleno apaga justamente a diferença entre cortesia pessoal e julgamento artístico.
O que ela elogiou e como tratou a questão da aparência dos personagens?
Le Guin achou belas várias imagens, gostou do modo como os dragões recolhiam as asas e destacou cenas de trabalho cotidiano, como arar, cuidar de animais e buscar água. Para ela, esses momentos recuperavam a calma concreta presente em Terramar. Ao mesmo tempo, considerou a animação irregular quando comparada a Meu Amigo Totoro e A Viagem de Chihiro.
Também observou que criou muitos habitantes de Terramar com pele escura para contrariar convenções da fantasia europeia. Criticou explicitamente o apagamento racial na adaptação televisiva norte-americana anterior. Sobre o anime japonês, porém, foi mais cautelosa: reconheceu não dominar a percepção racial do público do Japão, discutiu as convenções visuais da animação e notou alguma variação nos tons de pele. Não se deve atribuir às duas adaptações uma crítica formulada exatamente da mesma maneira.
Como a reação japonesa entrou na discussão?
Em 19 de agosto de 2006, Le Guin publicou em seu site uma carta enviada por uma pessoa do Japão, que descrevia espectadores divididos entre decepção e forte identificação emocional com o filme. É um testemunho escolhido e reproduzido pela escritora, não pesquisa representativa da opinião japonesa nem declaração escrita por ela sobre cada espectador.
O conflito documentado, portanto, envolve três dimensões diferentes: a expectativa contratual e criativa em torno de Hayao Miyazaki, a leitura de Le Guin sobre as transformações de sua obra e as interpretações divergentes do público. A crítica dela não foi uma acusação pessoal contra Gorō, e sim uma defesa dos personagens, do contexto e da filosofia narrativa que considerava essenciais em Terramar.
Fontes e referências
- Ursula K. Le Guin, resposta original ao filme
- Studio Ghibli, ficha oficial de Gedo Senki
- Studio Ghibli, entrevista com Toshio Suzuki
- Gorō Miyazaki, diário sobre a sessão com Le Guin
- Le Guin, correspondência japonesa de 19 de agosto de 2006
- Simon & Schuster, descrição oficial de Tehanu
- The City of Lost Books, ensaio crítico sobre o filme





