Em Ringu (1998), Sadako Yamamura é uma figura ligada ao fantasma vingativo do folclore japonês, marcada pela tragédia familiar e pelo mistério. Em O Chamado (The Ring, 2002), o remake americano transforma essa presença em Samara Morgan, uma criança adotada cuja história é contada por meio de pistas mais explícitas, imagens inquietantes e uma investigação familiar diferente. A fita amaldiçoada, os sete dias e o poço continuam, mas as personagens não têm exatamente a mesma origem nem a mesma função dramática.
Essa comparação se concentra nos dois filmes dirigidos por Hideo Nakata e Gore Verbinski, respectivamente. Ela não mistura a continuidade das continuações, a versão do romance de Kōji Suzuki ou outras adaptações da franquia.
Um remake, não a continuação da história japonesa
A página da Kadokawa identifica o lançamento japonês de Ringu em 31 de janeiro de 1998, com direção de Hideo Nakata, roteiro de Hiroshi Takahashi e base no romance de Kōji Suzuki. A Paramount identifica The Ring como filme de 2002 dirigido por Gore Verbinski e protagonizado por Naomi Watts. As durações informadas pelas distribuidoras são de 95 e 116 minutos, respectivamente.
O filme americano reencena e modifica a mesma premissa, em vez de continuar os acontecimentos da versão japonesa. Os nomes, a dinâmica familiar e a localização da investigação mudam; por isso, não faz sentido tratar Samara como Sadako dentro de uma única cronologia cinematográfica.
Aviso: a comparação a seguir revela elementos da origem e da morte de Sadako e Samara, mas não reconta o final de O Chamado (2002).
Quadro de diferenças: Sadako e Samara nos dois filmes
As correspondências abaixo se referem especificamente aos longas de 1998 e 2002, não às biografias ampliadas pelas sequências ou pelos livros.
| Aspecto | Ringu (1998) | O Chamado / The Ring (2002) |
|---|---|---|
| Direção e país | Hideo Nakata; Japão | Gore Verbinski; Estados Unidos |
| Investigadora | Reiko Asakawa | Rachel Keller |
| Parceiro na investigação | Ryūji Takayama, com percepção psíquica | Noah, sem o mesmo dom |
| Filho da protagonista | Yōichi | Aidan |
| Figura da maldição | Sadako Yamamura, representada como jovem mulher | Samara Morgan, representada como menina |
| Família e poço | Filha de Shizuko; morta por Ikuma, figura paterna | Filha adotiva dos Morgan; morta por Anna, mãe adotiva |
| Vínculo cultural e tom | Tradição dos espíritos vingativos e suspense contido | Releitura gótica americana e horror visual mais explícito |
| Elemento comum | Fita VHS, prazo de sete dias, poço e televisão | Fita VHS, prazo de sete dias, poço e televisão |
A origem mudou, sobretudo na relação com a família
Em Ringu, Sadako é apresentada como filha de Shizuko Yamamura, uma mulher associada a fenômenos psíquicos. A pesquisa sobre seus poderes envolve o professor Heihachiro Ikuma, figura paterna ligada à morte de Sadako no poço. Parte do passado chega ao público por relatos e visões cuja perspectiva não deve ser confundida com prova de cada detalhe sobrenatural.
No remake, Samara é a filha adotiva de Anna e Richard Morgan. O histórico de perturbações na fazenda, das imagens mentais e da deterioração da família ocupa mais espaço na investigação. É Anna quem coloca Samara no poço. Os filmes, portanto, deslocam a responsabilidade pela violência familiar e não oferecem uma equivalência simples entre a mãe de Sadako e a de Samara. A origem biológica de Samara permanece incerta no longa de 2002.
Por que Sadako remete ao folclore japonês
Na tradição dos kaidan, relatos japoneses de fantasmas, o onryō é um espírito que volta movido por uma injustiça ou ressentimento. O cabelo longo cobrindo o rosto, a roupa clara, o poço e a presença de uma mulher morta violentamente aproximam Sadako dessa iconografia. Isso não significa que todos os elementos tenham nascido com Ringu, nem que toda a cultura japonesa enxergue fantasmas de uma única maneira.
A pesquisadora Marisa Mourinha, em estudo publicado na Revista de Comunicação e Linguagens em 2020, relaciona o espectro dos filmes ao folclore, ao teatro tradicional e às imagens reproduzidas tecnologicamente. Já Lindsey Scott, em estudo sobre maternidade, chama atenção para a alteração de quem agride a personagem: um homem na narrativa japonesa, uma mãe adotiva na americana. São leituras acadêmicas das obras, não declarações de intenção dos diretores.
As protagonistas e os poderes também foram reescritos
No original, Reiko Asakawa investiga a fita com Ryūji Takayama, seu ex-marido, que demonstra sensibilidade psíquica. Nos Estados Unidos, Rachel Keller trabalha com Noah, ex-companheiro que não desempenha o mesmo papel de sensitivo. O filho de Reiko é Yōichi; o de Rachel é Aidan. A ameaça aos filhos aproxima as histórias, mas os recursos de investigação e as relações familiares não são iguais.
Outra distinção é a própria gravação. O vídeo japonês contém imagens que remetem à história de Shizuko, à ilha e a acontecimentos anteriores; a versão americana organiza outras pistas visuais em torno de Samara, inclusive motivos ligados a cavalos. A fita deixa de ser apenas um objeto que mata: ela também determina a linguagem do mistério em cada adaptação.
O medo de Ringu é o mesmo de O Chamado?
Os dois títulos usam aparições, televisão, água e imagens desconcertantes. A diferença está em como os elementos são distribuídos. Ringu trabalha com cenas contidas e um mal-estar que cresce enquanto a investigação avança. O Chamado amplia o aspecto físico da ameaça, com fotografia fria, ambientes encharcados e imagens de maior impacto visual.
No ensaio comparativo do Ghouls Magazine, Sarah Miles contrasta justamente o suspense gradual do japonês com o horror mais visceral do americano, sem reduzir um ao rótulo de versão superior. Essas escolhas não autorizam a regra simplista de que todo terror japonês seria sutil e todo terror americano dependeria de sustos. São características verificáveis destes dois filmes e uma interpretação crítica atribuída.
O que permaneceu igual e por que a distinção importa
As duas versões usam a lenda de uma fita que ameaça matar quem a vê após sete dias; as investigadoras precisam descobrir como o espectro e a gravação estão conectados. Poço, televisão e circulação das imagens continuam organizando a trama. O remake preserva o mecanismo básico da ameaça, mas altera sua história humana e os códigos culturais por meio dos quais o espectador a compreende.
Para comparar Sadako e Samara, portanto, vale partir do mesmo problema narrativo e observar o que cada adaptação faz com a personagem. O poço é compartilhado; o sentido da figura que emerge dele não é idêntico.





