SériesJeferson Dantas4 min de leitura

Shōgun: Toranaga queimou o navio de Blackthorne? O que diz a história

No final de Shōgun, Toranaga revela quem destruiu o Erasmus. Entenda o acordo de Mariko, o plano do senhor feudal e o destino histórico de William Adams e do Liefde.

Imagem dividida: um guerreiro japonês diante de um navio em chamas à esquerda; à direita, dois homens conversam diante de um navio intacto em um porto japonês.

Atenção: este artigo contém spoilers completos do episódio 10 de Shōgun (2024), A Dream of a Dream, inclusive a revelação sobre o navio de Blackthorne.

Sim, na série Shōgun, Toranaga admite ter ordenado a destruição do Erasmus, o navio de John Blackthorne. Mas essa revelação do final é uma escolha de ficção. Seu equivalente histórico, Tokugawa Ieyasu, não incendiou o Liefde, embarcação na qual William Adams chegou ao Japão em 1600. O navio real já estava muito danificado e acabou se deteriorando, enquanto Adams construiu outra trajetória no país.

Quem mandou destruir o Erasmus no episódio 10?

Após a morte de Mariko em Osaka, Blackthorne retorna a Ajiro e encontra o Erasmus destruído. A princípio, o ataque parece ser obra dos inimigos católicos do navegador. O padre Alvito já lhe havia contado que Mariko negociara com a Igreja para poupar sua vida; Blackthorne conclui que o navio foi o preço desse acordo. A explicação faz sentido para ele: perder a embarcação também significaria deixar de representar uma ameaça naval aos portugueses e aos interesses católicos.

O episódio complica essa leitura quando Toranaga ordena uma busca violenta pelos supostos responsáveis entre os habitantes da vila. Para interromper as punições, Blackthorne oferece a própria vida e tenta se matar diante do senhor feudal. Toranaga o impede e, em seguida, manda que reconstrua o navio e trabalhe na formação de uma frota.

A confirmação decisiva aparece em outra conversa. Pouco antes de acompanhar a morte ritual de Yabushige, Toranaga lhe revela que mandou destruir o Erasmus como um teste para o anjin, como Blackthorne é chamado. O acordo intermediado por Mariko e a ordem de Toranaga não são explicações incompatíveis: os religiosos queriam neutralizar o navio, enquanto Toranaga usou a destruição para testar a lealdade do piloto e mantê-lo ligado ao seu projeto. Blackthorne não participa dessa revelação e, portanto, não recebe a verdade completa em cena.

Por que o navio importa tanto para Toranaga?

O Erasmus é o principal meio de Blackthorne partir e também uma arma capaz de alterar disputas comerciais e religiosas. Ao retirá-lo de circulação, Toranaga controla as opções do inglês sem abrir mão de seus conhecimentos de navegação e construção naval. A ordem para criar uma nova frota deixa clara essa combinação de dependência e utilidade.

No podcast oficial do episódio 10, o showrunner Justin Marks explica que Mariko negociou a preservação da vida de Blackthorne em troca do acesso ao navio e de sua destruição. Marks também interpreta o desfecho como uma ruptura com as ambições que aprisionavam o navegador. É uma leitura oferecida pelo criador da adaptação, não uma descrição de acontecimentos documentados na vida de William Adams.

Quem foram William Adams e Tokugawa Ieyasu?

Blackthorne foi inspirado em William Adams, navegador inglês que viajou em uma expedição holandesa e chegou ao Japão em 1600 a bordo do Liefde. Toranaga foi construído a partir da figura de Tokugawa Ieyasu, o líder japonês que acolheu Adams como colaborador e conselheiro. Os personagens não são transcrições biográficas: Shōgun usa referências reais para contar uma história dramatizada.

A British Library, com base em documentação associada à Companhia Inglesa das Índias Orientais, registra que Adams viveu sob a proteção de Ieyasu, colaborou com postos comerciais estrangeiros em Hirado e permaneceu no Japão até morrer em 16 de maio de 1620. O historiador Frederik Cryns, pesquisador da vida de Adams, também destaca seu papel na difusão de técnicas ocidentais de construção naval e nas relações comerciais do governo de Ieyasu.

O que aconteceu com o Liefde na história real?

O guia histórico da FX para o próprio episódio 10 afirma expressamente que Ieyasu não mandou queimar o navio de Adams. O Liefde havia chegado em condições precárias e, sem reparos adequados, deteriorou-se até deixar de servir à tripulação. Ieyasu restringiu a saída dos sobreviventes, que acabaram abandonando a embarcação e seguindo caminhos diferentes no Japão.

O paralelo verificável não é, portanto, o incêndio, mas a dificuldade de Adams para deixar o país e o interesse do governante japonês em suas habilidades. Adams ajudou a construir embarcações de modelo ocidental para Ieyasu e se tornou seu conselheiro. Mais tarde obteve permissão para sair do Japão, mas não voltou à Inglaterra. Isso não transforma o destino fictício do Erasmus em um fato histórico.

O que a série mudou e por quê?

A versão dramatizada reúne, em uma única perda material, três conflitos de Blackthorne: a ameaça da Igreja, sua dependência de Toranaga e a possibilidade de regressar ao país de origem. A revelação tardia também mostra até onde Toranaga aceita manipular os próprios aliados. Na documentação histórica consultada, há a permanência de Adams no Japão, a deterioração do Liefde e sua atuação como especialista, mas não a conspiração de Ieyasu para incendiar a embarcação.

É nessa diferença que a pergunta encontra sua resposta: Toranaga ordenou a destruição do navio dentro da ficção; Tokugawa Ieyasu não fez o mesmo na história documentada. O incêndio explica a relação de poder entre os personagens, não a causa real do destino de William Adams.

Fontes e referências

Tópicos deste artigoErasmusficção versus realidadefinal explicadoJohn BlackthorneLiefdeShōgunTokugawa IeyasuToranagaWilliam AdamsShōgun Toranaga queimou navio BlackthorneShōgun episódio 10 navio ErasmusWilliam Adams LiefdeTokugawa Ieyasu história realShōgun final explicado
Média das avaliações

Avalie este artigo

Sua opinião ajuda outros leitores.

—
Sua nota