Atenção: este artigo contém spoilers completos do episódio 10 de Shōgun (2024), A Dream of a Dream, inclusive a revelação sobre o navio de Blackthorne.
Sim, na série Shōgun, Toranaga admite ter ordenado a destruição do Erasmus, o navio de John Blackthorne. Mas essa revelação do final é uma escolha de ficção. Seu equivalente histórico, Tokugawa Ieyasu, não incendiou o Liefde, embarcação na qual William Adams chegou ao Japão em 1600. O navio real já estava muito danificado e acabou se deteriorando, enquanto Adams construiu outra trajetória no país.
Quem mandou destruir o Erasmus no episódio 10?
Após a morte de Mariko em Osaka, Blackthorne retorna a Ajiro e encontra o Erasmus destruído. A princípio, o ataque parece ser obra dos inimigos católicos do navegador. O padre Alvito já lhe havia contado que Mariko negociara com a Igreja para poupar sua vida; Blackthorne conclui que o navio foi o preço desse acordo. A explicação faz sentido para ele: perder a embarcação também significaria deixar de representar uma ameaça naval aos portugueses e aos interesses católicos.
O episódio complica essa leitura quando Toranaga ordena uma busca violenta pelos supostos responsáveis entre os habitantes da vila. Para interromper as punições, Blackthorne oferece a própria vida e tenta se matar diante do senhor feudal. Toranaga o impede e, em seguida, manda que reconstrua o navio e trabalhe na formação de uma frota.
A confirmação decisiva aparece em outra conversa. Pouco antes de acompanhar a morte ritual de Yabushige, Toranaga lhe revela que mandou destruir o Erasmus como um teste para o anjin, como Blackthorne é chamado. O acordo intermediado por Mariko e a ordem de Toranaga não são explicações incompatíveis: os religiosos queriam neutralizar o navio, enquanto Toranaga usou a destruição para testar a lealdade do piloto e mantê-lo ligado ao seu projeto. Blackthorne não participa dessa revelação e, portanto, não recebe a verdade completa em cena.
Por que o navio importa tanto para Toranaga?
O Erasmus é o principal meio de Blackthorne partir e também uma arma capaz de alterar disputas comerciais e religiosas. Ao retirá-lo de circulação, Toranaga controla as opções do inglês sem abrir mão de seus conhecimentos de navegação e construção naval. A ordem para criar uma nova frota deixa clara essa combinação de dependência e utilidade.
No podcast oficial do episódio 10, o showrunner Justin Marks explica que Mariko negociou a preservação da vida de Blackthorne em troca do acesso ao navio e de sua destruição. Marks também interpreta o desfecho como uma ruptura com as ambições que aprisionavam o navegador. É uma leitura oferecida pelo criador da adaptação, não uma descrição de acontecimentos documentados na vida de William Adams.
Quem foram William Adams e Tokugawa Ieyasu?
Blackthorne foi inspirado em William Adams, navegador inglês que viajou em uma expedição holandesa e chegou ao Japão em 1600 a bordo do Liefde. Toranaga foi construído a partir da figura de Tokugawa Ieyasu, o líder japonês que acolheu Adams como colaborador e conselheiro. Os personagens não são transcrições biográficas: Shōgun usa referências reais para contar uma história dramatizada.
A British Library, com base em documentação associada à Companhia Inglesa das Índias Orientais, registra que Adams viveu sob a proteção de Ieyasu, colaborou com postos comerciais estrangeiros em Hirado e permaneceu no Japão até morrer em 16 de maio de 1620. O historiador Frederik Cryns, pesquisador da vida de Adams, também destaca seu papel na difusão de técnicas ocidentais de construção naval e nas relações comerciais do governo de Ieyasu.
O que aconteceu com o Liefde na história real?
O guia histórico da FX para o próprio episódio 10 afirma expressamente que Ieyasu não mandou queimar o navio de Adams. O Liefde havia chegado em condições precárias e, sem reparos adequados, deteriorou-se até deixar de servir à tripulação. Ieyasu restringiu a saída dos sobreviventes, que acabaram abandonando a embarcação e seguindo caminhos diferentes no Japão.
O paralelo verificável não é, portanto, o incêndio, mas a dificuldade de Adams para deixar o país e o interesse do governante japonês em suas habilidades. Adams ajudou a construir embarcações de modelo ocidental para Ieyasu e se tornou seu conselheiro. Mais tarde obteve permissão para sair do Japão, mas não voltou à Inglaterra. Isso não transforma o destino fictício do Erasmus em um fato histórico.
O que a série mudou e por quê?
A versão dramatizada reúne, em uma única perda material, três conflitos de Blackthorne: a ameaça da Igreja, sua dependência de Toranaga e a possibilidade de regressar ao país de origem. A revelação tardia também mostra até onde Toranaga aceita manipular os próprios aliados. Na documentação histórica consultada, há a permanência de Adams no Japão, a deterioração do Liefde e sua atuação como especialista, mas não a conspiração de Ieyasu para incendiar a embarcação.
É nessa diferença que a pergunta encontra sua resposta: Toranaga ordenou a destruição do navio dentro da ficção; Tokugawa Ieyasu não fez o mesmo na história documentada. O incêndio explica a relação de poder entre os personagens, não a causa real do destino de William Adams.





