Aviso: o texto revela o desfecho de Sholay (1975) e as cenas recuperadas na restauração de 2025.
Há uma diferença decisiva entre os dois finais de Sholay, filme indiano dirigido por Ramesh Sippy: na versão que chegou aos cinemas em 1975, a polícia impede que Thakur Baldev Singh mate Gabbar Singh e prende o bandido. No desfecho concebido e filmado originalmente, Thakur conclui sua vingança e mata Gabbar. A restauração 4K apresentada em 2025 recuperou esse final e duas cenas antes suprimidas, com base em elementos de película preservados no Reino Unido e na Índia.
A mudança não reescreve a trajetória de Jai e Veeru. Ela altera o último gesto da vingança de Thakur, personagem vivido por Sanjeev Kumar, e a forma como o filme resolve o conflito com Gabbar, interpretado por Amjad Khan. É por isso que a diferença vai além de alguns minutos extras.
Final censurado e final restaurado: o que acontece com Gabbar?
| Elemento | Versão lançada em 1975 | Final original recuperado em 2025 |
|---|---|---|
| Confronto | Thakur enfrenta e agride Gabbar depois da captura. | Thakur também enfrenta Gabbar e leva a vingança até a morte do rival. |
| Destino de Gabbar | O bandido sobrevive e é detido pela polícia. | Gabbar morre pelas ações de Thakur, que utiliza suas botas com cravos; relatos do material original situam a morte junto aos postes ligados à mutilação de Thakur. |
| Intervenção policial | Os policiais chegam a tempo de interromper a punição fatal. | Não há a intervenção que salva Gabbar no final original. |
| Material adicional na restauração | O corte exibido não apresentava integralmente duas sequências violentas. | Foram reintegradas uma sequência ampliada envolvendo Ahmed e uma cena de preparação das botas de Thakur. |
O contraste é narrativo: o final levado aos cinemas desloca a decisão sobre Gabbar para a autoridade policial; o final recuperado mantém a responsabilidade direta de Thakur pela morte do homem que destruiu sua família e lhe amputou os braços. Trata-se de acontecimentos das versões documentados pela Film Heritage Foundation, por entrevistas com os responsáveis e pela imprensa especializada, não de uma nova sequência rodada em 2025.
Por que o final precisou ser mudado em 1975?
Sholay estreou na Índia em 15 de agosto de 1975, durante o período conhecido como Emergência, iniciado em junho daquele ano. Segundo a cobertura do The Indian Express e os relatos recolhidos pelo The Hollywood Reporter India, o órgão de censura indiano considerou o desfecho original excessivamente violento e se opôs a mostrar um ex-policial fazendo justiça com as próprias mãos.
Ramesh Sippy, então, refez o encerramento para que Gabbar fosse preso. É importante distinguir as duas decisões: o assassinato de Gabbar pertence à concepção original registrada em película; a chegada dos policiais pertence ao desfecho alterado que o público conheceu no lançamento comercial. Não são duas interpretações de uma mesma imagem.
Quais duas cenas foram recuperadas, além do final?
A Film Heritage Foundation confirma a reintegração de duas cenas deletadas. A entrevista do Cinema Express com os responsáveis pela restauração as identifica, e o The Hollywood Reporter India detalha uma delas:
- Ahmed e Gabbar: a versão ampliada da sequência em que Ahmed, jovem de Ramgarh interpretado por Sachin Pilgaonkar, cai nas mãos dos homens de Gabbar explicita a crueldade do bandido. No corte censurado, a violência contra ele era em grande parte elidida antes do retorno de seu corpo ao vilarejo.
- As botas de Thakur: uma sequência mostra Ramlal preparando as solas com cravos para o confronto final. O detalhe reforça a preparação deliberada da vingança e sua ligação com a condição física de Thakur.
Essas cenas dão contexto ao peso do final recuperado. A documentação consultada permite identificá-las, mas não autoriza afirmar que todo plano filmado e excluído em 1975 foi reencontrado.
Como a restauração de 2025 encontrou o material perdido?
O trabalho começou em 2022, quando Shehzad Sippy, da Sippy Films, procurou a Film Heritage Foundation para preservar materiais guardados em Mumbai. Em latas sem identificação, a equipe encontrou negativos originais de imagem e som em 35 mm. Outros rolos permaneciam armazenados no Reino Unido e foram localizados com auxílio do British Film Institute. O material foi reunido no laboratório L'Immagine Ritrovata, em Bolonha, numa restauração que durou quase três anos.
Encontrar o negativo de câmera não significou poder utilizá-lo. Segundo a fundação, ele estava severamente deteriorado, com síndrome do vinagre e danos físicos. A reconstrução 4K usou sobretudo dois interpositivos e dois intermediários reversíveis coloridos, incluindo um interpositivo de 1978 preservado pela fundação. Foi em um intermediário colorido encontrado no Reino Unido que estavam o encerramento original e as duas cenas excluídas.
O som foi recuperado com o negativo sonoro original e elementos magnéticos preservados. Embora o filme tivesse sido captado em 35 mm e ampliado para exibição em 70 mm, nenhuma cópia de exibição em 70 mm sobreviveu. A equipe reconstruiu a proporção de imagem 2,2:1 com apoio de informações do profissional de câmera Kamlakar Rao sobre as marcações utilizadas na filmagem. Portanto, a restauração reproduz o enquadramento associado ao lançamento em 70 mm, mas não foi feita a partir de uma cópia 70 mm intacta.
Cronologia das versões e das exibições
- 15 de agosto de 1975: estreia comercial de Sholay na Índia com o desfecho alterado após a intervenção da censura.
- 2022: início do projeto de preservação e identificação dos materiais em Mumbai e no Reino Unido.
- 27 de junho de 2025: estreia mundial da nova restauração no festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, com o final original.
- 6 de setembro de 2025: apresentação no Festival Internacional de Cinema de Toronto, registrada pela Film Heritage Foundation.
- 2025: o Festival de Cinema de Nova York inclui a restauração em sua seção Revivals, anunciada como estreia norte-americana.
Uma sessão de festival não comprova que a mesma versão esteja incluída em uma assinatura de streaming ou disponível para compra doméstica no Brasil. É necessário verificar o título e o corte específico no catálogo da plataforma ou da edição física; a documentação de restauração não estabelece essa disponibilidade.
A versão de 2025 é exatamente a montagem original?
O Film at Lincoln Center apresenta o material como a aproximação mais fiel possível ao final originalmente concebido por Sippy. Essa formulação importa: trata-se de uma reconstrução a partir dos melhores elementos sobreviventes, não de um negativo integral recuperado sem danos. A duração também varia entre fichas institucionais: a Film Heritage Foundation informa 204 minutos, enquanto a página do Festival de Cinema de Nova York registra 206. A divergência de catálogo, por si só, não comprova duas restaurações com histórias diferentes.
O que está documentalmente estabelecido é que o trabalho de 2025 devolveu ao público o desfecho em que Thakur mata Gabbar, reinseriu duas sequências e recuperou imagem e som a partir de materiais históricos identificados. Para comparar as versões, essa é a diferença central, com uma consequência dramática evidente: a vingança termina nas mãos de Thakur, e não com Gabbar entregue à polícia.





