Filmes21/10/2026Jeferson Dantas5 min de leitura

Nosferatu (1922): por que mandaram destruir as cópias e como o filme sobreviveu?

A adaptação não autorizada de Drácula levou Florence Stoker a processar a produtora de Nosferatu. Entenda a ordem de destruição de 1925, por que exemplares continuaram circulando e como os arquivos permitiram restaurar o filme.

Arte editorial com vampiro em um navio sombrio, rolos de película, documento com carimbo vermelho de destruição de cópias e martelo de juiz.

A destruição de Nosferatu (1922) foi determinada porque o filme adaptou Drácula, de Bram Stoker, sem autorização dos responsáveis pelos direitos do livro. Florence Stoker, viúva e administradora da obra literária do escritor, venceu a disputa contra a produtora alemã Prana-Film. A ordem judicial previa eliminar as cópias, mas não alcançou todos os materiais que já circulavam. Foi essa dispersão que permitiu ao clássico dirigido por F. W. Murnau sobreviver.

A história reúne três acontecimentos diferentes: a adaptação não autorizada, a vitória judicial dos herdeiros e a preservação posterior de películas que escaparam da destruição. Confundi-los alimenta a versão simplificada de que uma única cópia milagrosa salvou o filme inteiro.

Por que Nosferatu era uma adaptação de Drácula?

Publicado em 1897, o romance Drácula forneceu a estrutura para Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens, que estreou em Berlim em 4 de março de 1922. A produção da Prana-Film teve direção de Murnau, roteiro de Henrik Galeen e Max Schreck como Conde Orlok. Para afastar o filme da obra de Stoker, os realizadores trocaram nomes, deslocaram a ação da Inglaterra para a Alemanha e modificaram elementos da narrativa.

O vampiro passou a se chamar Orlok, e a história enfatizou a chegada de ratos e a disseminação da peste. Essas alterações, descritas pelo British Film Institute (BFI), produziram uma identidade visual própria, mas não apagaram a relação com o livro. O filme ainda acompanhava o eixo central da narrativa de Stoker.

Havia também uma prova difícil de contornar: de acordo com o texto histórico publicado pelo U.S. Copyright Office no site da Library of Congress, materiais promocionais e créditos de determinadas cópias admitiam a origem literária da adaptação. Alterar personagens e cenários não equivalia a obter autorização para usar uma obra ainda protegida na jurisdição em que ocorreu o processo.

Quem pediu a destruição e o que a Justiça decidiu?

Florence Stoker tomou conhecimento do filme após a estreia e recorreu à Society of Authors, organização britânica de defesa dos escritores. A disputa seguiu contra a Prana-Film na Alemanha. Segundo a pesquisa histórica disponibilizada pela EBSCO, um tribunal alemão decidiu em julho de 1925 que a adaptação infringia os direitos sobre Drácula e determinou a destruição das cópias.

A produtora já havia entrado em falência em 1922, conforme a Friedrich-Wilhelm-Murnau-Stiftung. O processo não se limitava à questão de receber dinheiro: o objetivo de Florence incluía impedir que uma versão cinematográfica feita sem licença continuasse em circulação. A sentença favoreceu os titulares dos direitos, mas uma ordem de recolhimento não conseguia localizar automaticamente toda película existente fora do controle da produtora.

É fundamental distinguir a ordem judicial de seu cumprimento. A decisão exigia a destruição do material; ela não prova que todas as cópias tenham sido destruídas. Há registro de repressão a exibições e de perda de materiais, mas o próprio BFI afirma que o recolhimento total nunca foi alcançado.

Como o filme escapou? Uma cronologia dos acontecimentos

Período O que aconteceu Por que importa
1897 Bram Stoker publica Drácula. O romance é a obra literária cuja adaptação gerou a disputa.
1922 Nosferatu estreia em Berlim; Florence Stoker reage à versão não autorizada. O filme começa a circular antes da decisão final da Justiça.
Julho de 1925 Um tribunal alemão decide a favor de Florence Stoker e ordena destruir as cópias. A sentença atinge os materiais localizáveis, não todas as cópias já dispersas.
1928 e 1929 O filme volta a aparecer em exibições britânicas e chega a uma sessão nos Estados Unidos em 1929. Esses registros demonstram que a circulação continuou após a ordem.
2005 e 2006 Luciano Berriatúa conduz uma restauração para a Fundação Murnau, reunindo materiais de diferentes arquivos. A versão restaurada depende de várias fontes sobreviventes, não de uma película intacta.

A EBSCO relata que, mesmo após o julgamento, a London Film Society planejou sessões. Uma cópia usada no contexto britânico aparentemente foi queimada em 1929; outras existiam, já que naquele mesmo ano o filme foi exibido em Nova York. Por isso, a afirmação de que todas as cópias foram efetivamente eliminadas contradiz a documentação de circulação posterior.

Por que a situação nos Estados Unidos foi diferente?

O processo conhecido ocorreu na Alemanha, e o destino de uma exibição nos Estados Unidos dependia também da legislação norte-americana da época. O artigo do U.S. Copyright Office explica que o romance de Stoker, embora pudesse ser protegido pelas regras de reciprocidade então existentes, não havia cumprido uma exigência de depósito de exemplares necessária à proteção naquele país. Nessa leitura histórica, Drácula integrava o domínio público norte-americano, e os herdeiros não conseguiram impedir a circulação de Nosferatu ali pelo mesmo fundamento.

Isso não significa que a sentença alemã tenha sido revogada por um tribunal dos Estados Unidos. Tampouco autoriza concluir que direitos de exibição, distribuição ou de uma restauração sejam idênticos em todos os territórios e períodos. O ponto essencial é que a proteção autoral dependia da lei aplicável em cada país, enquanto cópias físicas podiam atravessar fronteiras.

O que as restaurações recuperaram do filme?

A sobrevivência não preservou necessariamente um único original completo e sem alterações. Filmes mudos circularam com cartelas de idiomas diferentes, cortes e materiais de qualidade desigual. O trabalho de restauração realizado por Luciano Berriatúa em 2005 e 2006, a pedido da Friedrich-Wilhelm-Murnau-Stiftung, exemplifica como pesquisadores reconstruíram uma apresentação do clássico a partir de fontes complementares.

Segundo os créditos técnicos publicados pelo festival Il Cinema Ritrovato, a base foi uma cópia de nitrato com tonalidades e intertítulos franceses de 1922, conservada pela Cinémathèque française. Trechos ausentes foram complementados com materiais preservados pelo Bundesarchiv-Filmarchiv e com outra versão existente no acervo francês. Para reconstituir as cartelas alemãs, a equipe recorreu a uma cópia de segurança feita em 1962 a partir de material de 1922; cartelas faltantes foram recriadas e identificadas.

Assim, Nosferatu sobreviveu primeiro porque a destruição judicial não alcançou todos os exemplares e, depois, porque instituições de preservação compararam fragmentos e versões. O caso reúne um direito autoral efetivamente reivindicado e uma história de conservação que não teria sido possível se todas as películas tivessem desaparecido.

Fontes e referências

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