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They Don’t Care About Us: por que existem dois clipes de 1996 e uma versão de 2020?

Spike Lee dirigiu duas leituras visuais da canção de Michael Jackson em 1996: uma no Brasil, outra numa prisão. Em 2020, reuniu imagens antigas e novos protestos antirracistas.

Colagem editorial com Michael Jackson ao centro, grades de prisão à esquerda, protestos ao fundo e percussionistas em uma rua brasileira à direita.

Michael Jackson e Spike Lee fizeram dois videoclipes de "They Don't Care About Us" em 1996 para apresentar a mesma canção por caminhos visuais distintos: um acompanha o cantor no Brasil, em meio ao Olodum e a moradores de Salvador e do Rio de Janeiro; o outro usa a prisão e imagens de violência e violações de direitos como centro da denúncia. Em 29 de agosto de 2020, Lee lançou uma nova montagem que reuniu material das duas produções e o relacionou a protestos antirracistas contemporâneos. A versão de 2020 é uma remontagem dirigida por Lee, não uma nova filmagem com Jackson, morto em 2009.

Há uma diferença importante entre explicar o efeito das duas versões e afirmar por que a equipe decidiu separá-las. Os filmes e a documentação oficial demonstram a existência de abordagens diferentes; já a cadeia exata de decisões de edição em 1996 não está integralmente documentada nas fontes primárias disponíveis.

Antes dos clipes: uma canção de protesto lançada em 1995

A faixa integra o álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I, de 1995. Segundo o comunicado divulgado pelo espólio de Michael Jackson em 2020, o cantor apresentou a composição como uma forma de abordar preconceito, ódio e problemas sociais e políticos. Esse contexto ajuda a entender por que os dois vídeos se concentram em desigualdade, racismo e violência institucional, sem que suas imagens sejam idênticas.

A letra também foi alvo de críticas em 1995 por expressões consideradas antissemitas. Na ocasião, Jackson pediu desculpas e anunciou que regravaria trechos, conforme noticiou o Los Angeles Times. É um episódio documentado e diferente das restrições de circulação posteriormente associadas ao vídeo da prisão. A controvérsia sobre palavras da música não basta, sozinha, para explicar a produção de duas montagens.

Versão Brasil: Pelourinho, Santa Marta e Olodum

Em fevereiro de 1996, a produção filmou no Pelourinho, em Salvador, com a participação do Olodum, e no Santa Marta, no Rio de Janeiro. A Memória Globo documenta a cobertura de Glória Maria para o Fantástico, exibida em 11 de fevereiro de 1996, incluindo sua aproximação do cantor no Rio. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada na época registrou a apresentação no Pelourinho e as tomadas com os percussionistas.

O cenário não era uma simples escolha turística: a gravação no Rio encontrou resistência de autoridades preocupadas com a imagem da cidade, enquanto a autorização para filmar chegou a passar por disputa judicial, segundo a Folha. O resultado combina a força coletiva da percussão e das ruas com a dimensão política da canção. Brasil identifica onde parte do vídeo foi gravada, não uma versão destinada exclusivamente ao mercado brasileiro.

Versão prisão: encarceramento e violência em primeiro plano

O outro vídeo de 1996, também dirigido por Lee, coloca Jackson em um ambiente prisional e recorre a imagens de arquivo relacionadas a abusos e conflitos. O próprio site oficial do artista o identifica como Prison version. Ao contrário da energia das ruas brasileiras, o foco é a privação de liberdade e a denúncia mais direta da violência institucional.

A descrição do vídeo no canal oficial de Jackson informa que a exibição da versão prisional foi limitada a determinados horários por causa de seu conteúdo controverso. Isso ajuda a compreender sua circulação televisiva, mas não demonstra que a censura tenha causado a decisão de produzir duas versões. Restrições de programação, polêmica sobre a letra em 1995 e resistência política às filmagens no Rio são acontecimentos distintos.

Por que duas versões em 1996, afinal?

O que pode ser afirmado sem especulação é que Lee concluiu dois curtas independentes com a mesma canção e propostas visuais complementares. Numa entrevista de 2012 ao The Playlist, o próprio cineasta confirmou ter realizado as duas versões, uma no Brasil e outra nos Estados Unidos. Enquanto o corte brasileiro faz a denúncia passar pela presença de uma comunidade e sua expressão cultural, o prisional acentua o aparato de repressão e o uso de imagens documentais.

Existe uma pista adicional, com limite de verificação: um artigo de 2001 republicado no site de fãs True Michael Jackson atribui a Lee a declaração de que, inicialmente, as cenas da prisão seriam combinadas às filmadas no Brasil. Como a publicação consultada não apresenta o registro integral da entrevista original, esse relato deve ser tratado como informação atribuída de fonte secundária, e não como explicação definitiva para a divisão. As fontes verificadas não autorizam reduzir a escolha a uma ordem da MTV ou a uma causa única.

O que Spike Lee acrescentou em 2020?

O novo curta foi apresentado em 29 de agosto de 2020, data em que Jackson completaria 62 anos, durante uma edição virtual da celebração Brooklyn Loves Michael Jackson. O espólio do cantor publicou um comunicado no dia seguinte confirmando que Lee reuniu trechos dos dois filmes originais e imagens de manifestações em diferentes cidades do mundo. A Rolling Stone também descreveu a incorporação de tomadas descartadas das produções anteriores.

As imagens contemporâneas se ligam aos protestos contra o racismo e a violência policial, especialmente ao movimento ampliado após a morte de George Floyd nos Estados Unidos. Entre as cidades citadas no comunicado do espólio estão Rio de Janeiro, Atlanta, Paris, Helsinque e Cidade do Cabo. Lee afirmou, em declaração divulgada nesse documento, que uma música de protesto continua pertinente enquanto a luta por igualdade continua. É a justificativa documentada para retomar a obra em 2020.

Assim, a edição de 2020 recontextualiza imagens já existentes por meio de acontecimentos posteriores. Ela não substitui os dois videoclipes de 1996 nem apaga suas diferenças; coloca lado a lado uma denúncia histórica e novos registros de mobilização social.

As três edições em comparação

Edição Material central Ênfase
Brasil, 1996 Pelourinho, Santa Marta, Michael Jackson, Olodum e moradores Presença coletiva, cultura afro-brasileira e desigualdade social
Prisão, 1996 Encenação em ambiente prisional e imagens documentais Encarceramento, violência policial e violações de direitos
Remontagem, 2020 Cenas dos dois clipes, material de arquivo e protestos de 2020 Atualização do protesto para mobilizações antirracistas globais

O que muda na interpretação da música

Um artigo acadêmico de Gabriella Maria von Flebbe do Amaral, publicado na revista Conversas & Controvérsias, analisa as duas versões de 1996 como formas de denúncia do racismo estrutural e da violência policial. Essa é a leitura defendida pela pesquisadora, não uma intenção adicional automaticamente comprovada dos realizadores.

Vistas em sequência, as três edições mostram três usos da mesma composição: a articulação entre música e comunidade no Brasil, o confronto com instituições no filme prisional e a conexão com manifestações de outro momento histórico em 2020. A distinção é audiovisual e editorial. Não são três canções diferentes nem três gravações inéditas de Michael Jackson.

Fontes e referências

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