FilmesJeferson Dantas5 min de leitura

Peaky Blinders: o que foi real na Operação Bernhard de O Homem Imortal?

A operação nazista de falsificação de libras foi real, mas o envolvimento de Tommy e Duke Shelby é ficção. Entenda a cronologia Andreas/Bernhard, os prisioneiros de Sachsenhausen e o que ocorreu com as notas.

Ilustração de homem com boina escura diante de documentos, máquinas de imprimir cédulas e prisioneiros atrás de uma cerca.
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A Operação Bernhard existiu. Durante a Segunda Guerra Mundial, o regime nazista produziu libras esterlinas falsificadas com trabalho forçado de prisioneiros judeus, tentando atingir a economia britânica e financiar atividades de espionagem. Em Peaky Blinders: O Homem Imortal (2026), a operação histórica serve de base para uma trama inventada envolvendo Tommy Shelby. Tommy Shelby não existiu, e a participação da família Shelby nessa operação também é ficção.

Aviso de spoilers leves: os próximos parágrafos identificam o plano do antagonista e o envolvimento de Duke, mas não revelam o destino dos personagens nem o final do filme.

Andreas veio antes de Bernhard: a cronologia que o filme aproxima

O Museu do Banco da Inglaterra distingue as fases do projeto. A ideia de inundar o Reino Unido com dinheiro falso surgiu em 1939; o plano inicial, conhecido como Operação Andreas, começou a tomar forma por volta de 1940. Segundo a transcrição de uma apresentação do museu, houve testes em 1941, inclusive com notas apresentadas a bancos suíços. A iniciativa perdeu apoio antes de ser retomada em 1942, então sob comando do oficial da SS Bernhard Krüger, com o nome Operação Bernhard.

A diferença importa porque a sinopse oficial da Netflix situa o filme em Birmingham, em 1940. Ao conectar esse período à produção de falsificações em Sachsenhausen e ao plano já estruturado, a narrativa aproxima a fase inicial Andreas da fase Bernhard, documentada a partir de 1942. Não é correto tratar todas essas etapas como uma única operação plenamente estabelecida em 1940.

O trabalho forçado em Sachsenhausen foi real

O centro da falsificação sob Krüger funcionou no campo de concentração de Sachsenhausen, perto de Berlim, não num empreendimento clandestino administrado por gângsteres britânicos. O Museu do Banco da Inglaterra registra uma equipe de 142 prisioneiros judeus selecionados por conhecimentos de impressão, gravura, desenho e atividade bancária. Eram pessoas mantidas em cativeiro, coagidas a trabalhar para o regime que as perseguia.

Para reproduzir as cédulas de £5, £10, £20 e £50, os prisioneiros estudaram marcas de segurança, gravaram o desenho de Britannia, tentaram reproduzir o papel e a marca-d'água e envelheceram as notas artificialmente. Segundo o museu, identificaram cerca de 150 marcas de segurança. A precisão técnica não pode ser confundida com participação voluntária: o trabalho ocorreu sob ameaça e os próprios prisioneiros tentaram atrasar a produção, como registra a apresentação histórica.

Entre os sobreviventes estava Adolf Burger, impressor judeu eslovaco que mais tarde relatou a experiência em livro. Sua trajetória ajuda a restituir às vítimas um lugar na história que, numa narrativa de ação, pode acabar dominado pelo suspense sobre quem distribuirá as notas.

O objetivo era derrubar a libra ou financiar a espionagem?

Os dois objetivos existiram, mas em momentos distintos. O projeto inicial previa espalhar grandes quantidades de notas falsas pelo território britânico, inclusive a partir de aviões, para abalar a confiança na libra. Essa distribuição em massa não ocorreu da forma imaginada. Na fase Bernhard, a documentação do Banco da Inglaterra destaca uma finalidade mais imediata: pagar agentes de inteligência e comprar ouro ou outros suprimentos usando moeda falsificada.

O filme recupera o perigo de inundar o mercado britânico com cédulas e transforma sua circulação numa missão que passa por personagens da ficção. John Beckett, interpretado por Tim Roth, é apresentado pela Netflix como simpatizante nazista que pretende distribuir libras falsas; Duke Shelby, vivido por Barry Keoghan, acaba envolvido. Essa conexão com a rede dos Peaky Blinders é um mecanismo de roteiro, não uma conclusão dos documentos históricos.

O que aconteceu de fato com as notas falsas?

Em 1943, uma falsificação que havia passado por um banco britânico no Marrocos foi identificada porque reutilizava um número de série de cédula já retirada de circulação. O Banco da Inglaterra explica que os falsificadores conseguiram imitar o papel e a impressão, mas não decifraram o sistema de numeração. Diante da ameaça, o banco retirou de circulação as notas de valor superior a £5.

Nos meses finais da guerra, os prisioneiros foram transferidos para a Áustria e libertados por forças norte-americanas em 6 de maio de 1945. O museu registra relatos de notas e chapas descartadas no lago Toplitz, mas distingue essas notícias das estimativas incertas sobre o montante total. A operação prejudicou a confiança nas cédulas e exigiu medidas bancárias; não provocou o colapso da economia britânica planejado pelos nazistas.

O que é ficção em O Homem Imortal?

O fato histórico é o programa de falsificação, sua execução com trabalho forçado, a circulação clandestina de cédulas e a reação do Banco da Inglaterra. A invenção dramática está em atribuir a Tommy, Duke e Beckett papéis decisivos na distribuição e na disputa em torno do dinheiro. Steven Knight contou à Radio Times que utilizou o episódio histórico como ponto de partida para imaginar a participação de organizações criminosas. A reportagem de Guy Walters no The Independent também distingue o plano real da solução narrativa do longa.

Assim, a pergunta mais precisa não é se Peaky Blinders reconstitui literalmente a Operação Bernhard, mas quais mecanismos reais o roteiro deslocou para a história fictícia dos Shelby. A falsificação e as vítimas são fatos documentados. O papel da família Shelby é ficção, e a aproximação entre 1940 e 1942 deve ser lida como condensação dramática, não como cronologia histórica.

Fontes e referências

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