MúsicaJeferson Dantas6 min de leitura

The Lion Sleeps Tonight: de Mbube ao acordo pelos direitos de Solomon Linda

A canção começou como Mbube, gravada por Solomon Linda em 1939, passou por Wimoweh e virou sucesso com os Tokens em 1961. Entenda as mudanças e o acordo autoral de 2006.

Colagem ilustrada com cantor e grupo vocal em preto e branco, disco com o nome Mbube, partitura, leão ao pôr do sol e martelo de juiz.

The Lion Sleeps Tonight nasceu de Mbube, canção gravada em 1939 pelo sul-africano Solomon Linda com os Evening Birds. Ela chegou aos Estados Unidos como Wimoweh, na interpretação dos Weavers, e ganhou letra em inglês e uma nova forma pop com os Tokens em 1961. A expansão internacional não se traduziu em reconhecimento e remuneração proporcionais para a família do compositor. Em 2006, um acordo com a editora Abilene Music reconheceu a ligação com Mbube, incluiu Linda como coautor da versão popularizada e previu pagamentos passados e royalties futuros. O valor financeiro não foi divulgado.

Mbube: a gravação original de Solomon Linda em 1939

Solomon Linda era um trabalhador migrante e cantor zulu em Joanesburgo. Em 1939, registrou Mbube, palavra zulu para leão, com seu grupo vocal, os Evening Birds. O arranjo combinava vozes em coro e linhas agudas improvisadas por Linda. O relato publicado em 2006 pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), assinado por Owen Dean, advogado da família, identifica nessa gravação a melodia que atravessaria as versões posteriores.

A gravação fez sucesso na África do Sul. Mas o êxito do disco e os direitos de composição são questões distintas: segundo Dean, Linda havia cedido os direitos autorais mundiais de Mbube à gravadora Gallo por dez xelins. Ele morreu em 1962, antes de a disputa internacional pelos rendimentos ser resolvida. O ponto de partida da história, portanto, não foi uma criação dos músicos norte-americanos nem uma composição feita para a Disney.

Como Mbube se tornou Wimoweh nos Estados Unidos

A gravação sul-africana chegou ao cantor Pete Seeger no início dos anos 1950. Seeger adaptou o material para o repertório do grupo folk The Weavers e transformou a expressão cantada em zulu em Wimoweh, uma aproximação sonora, não uma tradução do título Mbube. O registro da história da canção na OMPI situa essa passagem como o primeiro grande salto internacional da composição.

A versão dos Weavers foi gravada em 1952, conforme a cronologia reproduzida por uma decisão do Tribunal Federal de Apelações dos Estados Unidos em 2000. Ela conservou elementos melódicos do original, mas circulou em outro mercado e sob outro nome. É importante distinguir essa etapa da versão em inglês que se tornaria famosa na década seguinte: Wimoweh não nasceu com a letra que o público associa hoje a The Lion Sleeps Tonight.

O que os Tokens mudaram em 1961

Em 1961, os compositores e produtores George David Weiss, Hugo Peretti e Luigi Creatore trabalharam em uma nova adaptação, gravada pelo grupo The Tokens como The Lion Sleeps Tonight. O processo incluiu a criação de versos em inglês e uma apresentação pop diferente da gravação sul-africana e do arranjo dos Weavers. A faixa se tornou um grande sucesso comercial nos Estados Unidos.

A decisão judicial norte-americana de 2000 documenta a participação dos três autores na letra em inglês e registra uma disputa própria entre integrantes dos Tokens e esses compositores a respeito da coautoria. Esse processo não deve ser confundido com a reivindicação posterior dos herdeiros de Linda. Também seria incorreto tratar as novas palavras e a produção de 1961 como prova de que a melodia de Mbube deixou de ter um autor identificável.

Por que O Rei Leão entrou na disputa

A canção passou por numerosas regravações e ganhou exposição adicional com usos associados a O Rei Leão, da Disney, no cinema e no teatro durante os anos 1990. O fato de a Disney utilizar a obra não significa que a empresa a tenha composto nem que fosse a titular original de Mbube. O ponto jurídico era a autorização para explorar The Lion Sleeps Tonight, uma adaptação que preservava material criado por Linda.

Segundo o relato de Owen Dean, a editora norte-americana Abilene Music detinha direitos sobre The Lion Sleeps Tonight e licenciou o seu uso para a Disney. Os representantes da família moveram a ação na África do Sul contra a Disney e outros licenciados porque não conseguiam processar diretamente a Abilene naquele foro, onde a editora não possuía ativos conhecidos. A diferença entre compositor, editora e empresa que usa a música é decisiva para entender o caso.

Da cessão de direitos ao processo de 2004

A estratégia da família se apoiou numa regra de reversão prevista na legislação britânica de direitos autorais de 1911, aplicável à situação examinada na África do Sul. Conforme a interpretação apresentada por Dean, direitos cedidos em vida poderiam retornar ao espólio do autor 25 anos após sua morte. No caso de Linda, isso apontava para 1987. O advogado também examinou cessões posteriores feitas pela viúva e pelas filhas a outros agentes, argumentando que elas não haviam transferido o direito que caberia ao espólio sob essa regra específica.

Em 2004, o espólio foi reaberto e a ação ganhou força com medidas judiciais envolvendo marcas registradas da Disney na África do Sul. A ABC News informou naquele ano que a família buscava 10 milhões de rands em indenização. A decisão que manteve as medidas provisórias permitiu o avanço da discussão, mas não deve ser descrita como uma sentença definitiva que já tivesse condenado a Disney a pagar o valor reclamado.

O que o acordo de 2006 garantiu aos herdeiros

Antes do julgamento previsto para 21 de fevereiro de 2006, as partes chegaram a um acordo envolvendo a Abilene Music. A ABC News noticiou a solução em 17 de fevereiro. Segundo a descrição detalhada publicada por Owen Dean na OMPI, os termos incluíam:

  • remuneração aos herdeiros por utilizações passadas de The Lion Sleeps Tonight e participação em royalties futuros no âmbito mundial;
  • reconhecimento expresso de que The Lion Sleeps Tonight deriva de Mbube;
  • reconhecimento de Solomon Linda como coautor de The Lion Sleeps Tonight, com indicação desse crédito dali em diante;
  • criação de um fundo fiduciário para administrar os interesses autorais e os valores devidos aos herdeiros.

O montante do pagamento ficou confidencial. A ação foi retirada como parte do acordo, portanto o desfecho não equivale a um julgamento final que tenha decidido todas as alegações no mérito. Tampouco é correto atribuir automaticamente à Disney o pagamento negociado com a editora: a Abilene foi parte central da solução, embora a Disney também estivesse envolvida no litígio.

O acordo encerrou toda a discussão sobre a canção?

O acordo estabeleceu direitos e reconhecimentos que haviam faltado à família, mas isso não permite afirmar que os herdeiros passaram a receber toda a renda gerada por qualquer gravação. Uma reportagem do Los Angeles Times de 2019, ao tratar do documentário The Lion’s Share, mostrou que a avaliação da compensação recebida ainda era objeto de questionamentos. O valor exato do acordo de 2006 permaneceu não divulgado nas fontes consultadas.

A cronologia esclarece o essencial: Mbube é a composição sul-africana de 1939; Wimoweh é a adaptação difundida pelos Weavers; The Lion Sleeps Tonight é a versão com nova letra e produção popularizada pelos Tokens. O acordo de 2006 vinculou formalmente essa última ao trabalho de Linda e aos direitos de seus herdeiros, sem apagar as diferenças entre as gravações e os contratos envolvidos.

Fontes e referências

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