Os relatos sobre os direitos de Waka Waka (This Time for Africa) e Zangalewa parecem divergir porque descrevem momentos diferentes das negociações e usam fontes de natureza distinta. Em 28 de maio de 2010, a AFP noticiou a declaração do empresário do grupo camaronês de que havia um acordo. Em 2025, o ge lembrou as tentativas iniciais frustradas, mas também relatou que os músicos passaram a receber créditos e participação nos direitos. Nenhuma das fontes consultadas apresenta o contrato integral assinado, seus valores ou a relação completa das partes.
De onde veio o refrão de Waka Waka?
A canção de Shakira, gravada com o grupo sul-africano Freshlyground para a Copa do Mundo de 2010, retomou um refrão associado a Zangalewa, sucesso camaronês lançado na década de 1980 e conhecido na gravação do Golden Sounds, depois também identificado pelo nome Zangalewa. A AFP, em uma reportagem reproduzida pela Folha em 29 de maio de 2010, chamou a formação de Golden Voices. Essa variação de nome nas reportagens não muda o ponto principal: a origem camaronesa do refrão é reconhecida pelas fontes.
A semelhança entre os refrões deve ser distinguida de outra afirmação mais específica: que teria sido copiado um trecho de uma gravação. A Cadena SER, em 21 de setembro de 2026, usa o termo sample ao tratar das canções de Shakira, mas seu comentário não apresenta uma análise técnica da gravação nem a licença de 2010. Por isso, a ligação musical pode ser descrita sem presumir qual técnica de produção foi empregada.
O que foi anunciado em maio de 2010?
A AFP publicou em 28 de maio de 2010 uma notícia baseada na fala de Didier Edo, apresentado como empresário do grupo camaronês. Ele afirmou que as partes haviam chegado a um entendimento com os produtores de Waka Waka. A Folha reproduziu a reportagem em 29 de maio. O texto também dizia que a adaptação havia começado sem autorização dos camaroneses e situava a autorização anunciada naquele momento, antes do Mundial.
O alcance da prova é preciso: trata-se de uma declaração contemporânea de um representante, transmitida por uma agência de notícias. Não é a publicação de um instrumento contratual; o documento, o valor do pagamento, a distribuição de receitas e as assinaturas não aparecem na matéria.
Por que o ge falou em negociações sem sucesso?
Em 14 de agosto de 2025, ao explicar por que Zangalewa voltou a chamar atenção em um mosaico de torcedores em Burkina Faso, o ge escreveu que integrantes do Golden Sounds tentaram negociar com Sony Music, Fifa e um representante da cantora, inicialmente sem sucesso. A reportagem menciona depois a pressão pública, a possibilidade de ação judicial e a inclusão de créditos e participação nos direitos. Portanto, seu próprio relato diferencia a dificuldade inicial do desfecho posterior.
Não é necessário escolher entre a frase de 2010 e a de 2025 como se as duas descrevessem o mesmo dia. A primeira registra um acordo anunciado em maio; a segunda reconstrói etapas anteriores e um resultado posterior. Permanecem dúvidas documentais sobre quando cada obrigação foi formalizada e quem tinha poderes para assiná-la.
Um relato de julho aponta outra camada da negociação
Em texto publicado pelo blog especializado Afro-IP em 2 de agosto de 2010, Christian Dudieu Djomga, apresentado como envolvido no caso, relatou uma disputa entre os autores de Zangalewa e os sucessores de um produtor que, segundo ele, recebera certos direitos patrimoniais em 1986. O texto afirma que eles assinaram um protocolo em Douala em 7 de julho de 2010 para estabelecer a repartição de valores que esperavam receber de Sony Music e Shakira.
Esse relato, atribuído ao participante, não equivale à leitura do protocolo. Também não permite fundir automaticamente o ajuste interno entre titulares de direitos, alegadamente de julho, com o entendimento informado por Didier Edo em maio. As partes e os objetos descritos não são idênticos.
O que as fontes de 2026 realmente confirmam?
Um artigo da Revista da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), de 10 de junho de 2026, descreveu um acordo extrajudicial negociado pela administração de Shakira e pela Sony Music com autores de Zangalewa, posteriormente creditados como coautores de Waka Waka. Já a Cadena SER, em 21 de setembro de 2026, apresentou a incorporação de músicas anteriores como prática feita com permissões, créditos e pagamentos, e observou a presença dos músicos camaroneses entre os autores creditados.
Essas publicações ajudam a documentar como o caso passou a ser descrito posteriormente. Não demonstram, por si sós, o conteúdo de cada autorização original, o momento de pagamento ou o cumprimento individual de obrigações contratuais. Créditos autorais e recebimento efetivo de royalties são questões relacionadas, porém diferentes.
O que pode ser concluído sobre os direitos?
Há documentação jornalística de uma declaração de acordo em maio de 2010, de dificuldades de negociação relatadas retrospectivamente e de referências posteriores a um acerto extrajudicial e a créditos compartilhados. O que não está disponível nas fontes aqui examinadas é a íntegra do contrato capaz de conciliar cláusulas, datas, representantes, percentuais e pagamentos. Assim, não há base para concluir judicialmente que houve plágio, que nunca existiu acordo ou que todos os pagamentos foram realizados exatamente como previstos.
Fontes e referências
- AFP reproduzida pela Folha: notícia do acordo anunciado em maio de 2010
- ge: reconstrução da controvérsia em reportagem de 2025
- Afro-IP: relato atribuído a Christian Dudieu Djomga, publicado em 2010
- Revista da OMPI: contextualização posterior sobre acordo extrajudicial e créditos
- Cadena SER: análise de Pablo Lluch publicada em setembro de 2026





