Os créditos Alan Smithee e Judas Booth aparecem na versão de televisão de Duna (1984) porque David Lynch retirou seu nome daquela remontagem. O primeiro substituiu sua assinatura de diretor; o segundo, a de roteirista. Não se trata de dois cineastas que assumiram oficialmente o filme, nem de uma montagem do diretor: a edição para TV foi reorganizada pela MCA TV sem a participação de Lynch.
A reportagem de Chris Willman publicada no Los Angeles Times em 5 de junho de 1988 é decisiva para entender a autoria do novo corte. Ela identifica quem o preparou, distingue a transmissão televisiva do lançamento de 1984 e registra a manifestação de Lynch por intermédio de um representante.
O que significam Alan Smithee e Judas Booth?
Alan Smithee era um nome convencional associado ao Directors Guild of America (DGA) quando um diretor conseguia retirar seu crédito por não reconhecer a versão final de determinada obra. O Papo de Cinema explica esse procedimento e seu vínculo com a perda de controle criativo. No caso de Duna, Willman registrou que Lynch recebeu autorização para remover o nome da versão televisiva.
Judas Booth surge no crédito de roteiro dessa mesma montagem. Na matéria de 1988, Willman aventou, em forma de pergunta, que o nome combina Judas Iscariotes, associado à traição, e John Wilkes Booth, assassino de Abraham Lincoln. Essa leitura simbólica é plausível, mas a reportagem não documenta uma explicação direta de Lynch sobre a escolha do nome. Não convém transformá-la em declaração comprovada do cineasta.
O AFI Catalog confirma a dupla troca de créditos na transmissão. A ficha do filme lançado em 1984, por sua vez, mantém David Lynch como diretor e roteirista. Os pseudônimos assinalam a dissociação daquela edição específica, não apagam o trabalho que Lynch realizou no longa original.
Quem remontou Duna para a televisão em 1988?
O nome documentado é Harry Tatelman, então vice-presidente de projetos especiais da MCA TV. De acordo com a reportagem contemporânea do Los Angeles Times, Tatelman trabalhou com o material filmado originalmente e refez a montagem usando como orientação um roteiro de edição anterior. Ele afirmou ter sido informado de que Lynch não estava disponível para colaborar.
Não é correto dizer que Tatelman dirigiu uma nova adaptação de Duna. Seu papel relatado foi o de reorganizar imagens existentes para uma nova exibição. A mesma reportagem observa que muitas cenas ficaram mais longas e outras, ausentes dos cinemas, reapareceram. A participação efetiva de Lynch nessa reconstrução não é documentada: o registro de 1988 aponta justamente a ausência do diretor.
O catálogo do American Film Institute, apoiado em notícia do Daily Variety de 26 de maio de 1988, acrescenta que trechos foram retirados e material antes descartado voltou ao filme, com nova narração escrita por Francesca Turner. Portanto, a versão de TV não é simplesmente a película de cinema acrescida de todas as cenas excluídas.
O que mudou entre a versão de cinema e a exibição na TV?
A mudança mais facilmente verificável é a combinação de outra organização das cenas, duração maior e narração adicional. O Los Angeles Times calculou, na época da exibição pela KTLA, um aumento aproximado de 50 minutos em relação ao filme de 1984. Esse número pertence à comparação feita pelo jornal em 1988, não deve ser aplicado automaticamente a qualquer DVD ou arquivo identificado como edição estendida.
A diferença de créditos também é reveladora. A versão cinematográfica segue catalogada com direção e roteiro de Lynch, enquanto a televisiva traz os nomes substitutos. Os documentos consultados permitem apontar mudanças de montagem e de apresentação, mas não permitem declarar que toda cena ausente do cinema foi reintegrada ou que exista um corte longo finalizado pelo próprio diretor.
Cinema, televisão e edições posteriores: quais são as diferenças?
| Versão ou registro | O que as fontes comprovam | Como interpretar |
|---|---|---|
| Cinema, 1984 | 137 minutos no AFI Catalog e na ficha oficial da Universal, com direção de David Lynch. | É a montagem cinematográfica identificada como o filme de 1984. |
| Televisão, 1988 | Remontagem da MCA TV, exibida pela KTLA; cerca de 50 minutos a mais na comparação do Los Angeles Times; créditos Alan Smithee e Judas Booth. | Edição televisiva distinta, sem endosso de Lynch como novo corte autoral. |
| DVD estendido e outras mídias | O guia de discos Giedi Prime registra a Extended Edition com 177 minutos. O BBFC lista uma edição física britânica de 176 min 39 s, classificada em 2000. | Durações e apresentação dependem do lançamento; não equiparar automaticamente cada mídia ao sinal transmitido em 1988. |
Essa distinção explica por que aparecem cifras diferentes em buscas e embalagens. O BBFC também registra 136 minutos para uma classificação cinematográfica britânica, enquanto a Universal Pictures At Home informa 2 horas e 17 minutos. São registros de distribuição e classificação de edições específicas, não prova de que um novo director's cut tenha sido autorizado.
Da mesma forma, um relançamento ou restauração de imagem não é automaticamente uma nova montagem. A Arrow Films, por exemplo, descreve uma edição 4K com duração aproximada de 137 minutos; essa informação deve ser lida como característica daquele produto, não como confirmação de que contém a remontagem televisiva.
Por que a versão longa não deve ser chamada de director’s cut?
Um director's cut pressupõe que aquela apresentação possa ser atribuída ao diretor como sua escolha de montagem. Aqui, o registro histórico aponta o contrário: Lynch pediu a retirada de seu nome, e a intervenção de Tatelman foi realizada para a televisão. O crédito Alan Smithee é justamente uma pista da ruptura entre autoria original e versão exibida.
A reportagem de 1988 não prova quem decidiu cada alteração individual, nem uma intenção pessoal por trás do apelido Judas Booth. O que ela documenta, em conjunto com o AFI, é suficiente para a resposta principal: Lynch assinou Duna no cinema, rejeitou a associação de seu nome ao novo corte de TV, e a MCA TV executou a remontagem.
Fontes e referências
- Los Angeles Times: Chris Willman, 'Dune II: The Re-edit' (5 June 1988)
- AFI Catalog: Dune (1984), history, credits and 1988 television edit
- Papo de Cinema: Marcelo Müller, 'Por que David Lynch não assina uma das versões do seu Duna?'
- Universal Pictures At Home: Dune (1984), official film listing
- BBFC: Dune (1984), cinema and home-video classification records
- Giedi Prime / Duneinfo: Dune DVD and Blu-ray disc editions
- Arrow Films: Dune Limited Edition 4K UHD, product specifications





