A música Take On Me teve uma primeira gravação comercial e um videoclipe em 1984. Em 1985, o a-ha regravou a faixa com o produtor Alan Tarney e passou a divulgá-la com outro videoclipe, dirigido por Steve Barron, que misturava filmagem e animação desenhada. Há ainda um detalhe que costuma embaralhar a história: no Reino Unido, a gravação de 1985 foi lançada em abril e relançada em setembro. Não eram três clipes nem três regravações inteiramente diferentes.
Para entender a sequência, é preciso separar quatro coisas: as demos feitas antes do sucesso, o áudio publicado em disco, as várias tentativas comerciais e as duas produções audiovisuais. A versão remasterizada em 4K lançada em 2019 pertence à história do segundo clipe, não representa um terceiro videoclipe dos anos 1980.
Antes do single de 1984: as demos de Take On Me
A origem da canção é anterior à estreia comercial do a-ha. Segundo a história oficial da banda, uma versão inicial chamada Lesson One foi gravada na Noruega no fim de 1982 e trabalhada novamente em uma demo no estúdio Rendezvous, em Londres, no verão europeu de 1983. Eram etapas de desenvolvimento, não o single de 1984 que chegou às lojas.
O trio formado por Morten Harket, Magne Furuholmen e Pål Waaktaar-Savoy já tinha, portanto, a base da música antes de definir a gravação que seria comercializada. Confundir demo, primeira edição do single e versão do álbum faz parecer que todos esses registros são lançamentos equivalentes.
1984: a primeira gravação comercial e o clipe de apresentação
O primeiro single de Take On Me saiu em 19 de outubro de 1984, data indicada tanto pela história oficial do a-ha quanto pelo levantamento de edições físicas da canção. Essa gravação foi produzida por Tony Mansfield. A discografia especializada identifica também uma remixagem de John Ratcliff com a banda na edição original. É um registro diferente da regravação que se popularizaria no ano seguinte.
O primeiro videoclipe acompanhou essa fase e mostrava basicamente os três integrantes se apresentando diante de um fundo azul. Sem narrativa de quadrinhos ou personagens atravessando mundos, a produção era centrada na performance. A reportagem retrospectiva da Creative Review e o comunicado oficial do a-ha de 2019 confirmam que esse clipe existiu antes do vídeo famoso de Barron.
A tentativa inicial não produziu a projeção internacional pretendida. Isso levou a banda e a gravadora a reconsiderar tanto a produção musical quanto a maneira de apresentar a canção na televisão.
1985: a regravação de Alan Tarney e os relançamentos
O a-ha voltou ao estúdio para registrar outra gravação de Take On Me, agora produzida por Alan Tarney. Na retrospectiva oficial, a banda explica que Tarney recuperou parte do espírito de uma demo anterior para chegar à sonoridade desejada. Portanto, chamar a faixa de 1985 apenas de um arquivo antigo com som melhorado apaga uma mudança de produção e de gravação.
Essa nova versão teve uma edição britânica em abril de 1985, ainda sem grande repercussão. O single foi relançado no Reino Unido em setembro de 1985, depois de ganhar impulso por meio do novo vídeo exibido nos Estados Unidos. A discografia registra três etapas de lançamento do single no Reino Unido: outubro de 1984, abril de 1985 e setembro de 1985. Isso não equivale a três gravações principais nem a três videoclipes.
A gravação de Tarney é a associada ao álbum de estreia Hunting High and Low (1985). Em outubro de 1985, Take On Me chegou ao topo da Billboard Hot 100 norte-americana e alcançou o segundo lugar no ranking britânico Official Singles Chart. São posições de mercados diferentes, não classificações brasileiras.
Os dois videoclipes: performance em azul ou romance em quadrinhos?
A diferença visual é mais fácil de reconhecer do que as sucessivas edições do disco. No clipe de 1984, a apresentação do grupo contra um cenário azul é o centro das imagens. No vídeo de 1985, o diretor Steve Barron conta uma história que cruza o mundo real e desenhos a lápis. A animação é combinada à filmagem pela técnica de rotoscopia, que envolve redesenhar a imagem filmada quadro a quadro.
O novo clipe transforma uma canção de synth-pop em uma pequena aventura romântica, com um personagem que parece sair de uma história em quadrinhos e estabelecer contato com uma mulher no mundo real. Os artistas Michael Patterson e Candace Reckinger trabalharam na animação. Segundo material oficial do a-ha publicado em 2020, foram 16 semanas de trabalho de rotoscopia sobre milhares de quadros.
A cronologia da banda informa que o vídeo renovado já aparecia na televisão norte-americana em maio de 1985. Essa informação é diferente da data do relançamento do single no Reino Unido, em setembro. Gravação, vídeo e campanha de lançamento não ocorreram todos no mesmo dia.
Linha do tempo: gravação, lançamento e videoclipe
| Quando | Áudio e lançamento comercial | Videoclipe ou contexto |
|---|---|---|
| Fim de 1982 e 1983 | Demos anteriores, incluindo Lesson One | Ainda não são os dois clipes comerciais. |
| 19 de outubro de 1984 | Primeiro single, produção de Tony Mansfield | Primeiro vídeo: banda se apresentando diante de fundo azul. |
| Abril de 1985 | Nova gravação de Alan Tarney lançada no Reino Unido | Essa edição antecede o impulso comercial do segundo clipe. |
| Maio de 1985 | A mesma fase da regravação de 1985 | Vídeo de Steve Barron aparece na televisão dos EUA. |
| Setembro e outubro de 1985 | Relançamento britânico; nº 2 no Reino Unido e nº 1 nos EUA em outubro | É o clipe com desenhos e filmagens que se torna famoso. |
| Dezembro de 2019 | Restauração do material associado ao vídeo de 1985 | O clipe de Barron chega em 4K; não é um novo vídeo dos anos 1980. |
Por que existem duas versões da música, mas três lançamentos do single?
A contagem depende do objeto. Para comparar o áudio principal da época, o ponto de partida é a gravação de Mansfield, publicada em 1984, e a regravação de Tarney, publicada em 1985. Para contar as campanhas britânicas do single, entram três datas: outubro de 1984, abril de 1985 e setembro de 1985. Já na história dos videoclipes, são dois: o de performance e o de animação. Edições em 7 e 12 polegadas e versões estendidas podem trazer outras durações e mixagens, mas não transformam automaticamente cada disco em um clipe novo.
As datas acima descrevem a sequência documentada do Reino Unido e o impulso nos Estados Unidos. Outros países tiveram prensagens e campanhas próprias; não se deve tomar o calendário britânico como data universal de lançamento.
O vídeo em 4K é uma terceira versão original?
Não. Em 30 de dezembro de 2019, o a-ha anunciou a restauração em 4K do clipe de 1985. O trabalho foi possível porque a produção tinha sido filmada e montada em película de 35 mm. A nota oficial menciona pequenas diferenças em alguns quadros recuperados e a reinclusão de créditos finais que haviam sido retirados de versões anteriores.
Essas particularidades tornam a restauração interessante para comparar cópias do próprio vídeo de Barron, mas não a convertem no primeiro clipe, em uma terceira filmagem original de 1985 ou em outra regravação da canção. Para identificar o que se está vendo, a pergunta prática é: o vídeo apresenta somente a banda sobre fundo azul ou a história desenhada e filmada? Essa é a separação decisiva entre os dois clipes originais.
Fontes e referências
- a-ha: história oficial da banda e de Hunting High and Low
- a-ha: comunicado de 2019 sobre os dois vídeos e a restauração 4K
- a-ha: créditos da animação e informações da restauração (2020)
- Creative Review: história oral do videoclipe Take On Me (2022)
- a-ha Discography: primeira, segunda e terceira edições do single
- Official Charts: histórico de Take On Me no ranking britânico





