John Woo considera The Killer (2024) outra versão de sua história de 1989 porque a refilmagem troca o protagonista, muda a motivação para proteger uma cantora, reconstrói a parceria com o investigador e escolhe um desfecho diferente. Isso não elimina a classificação de remake: a produção retoma deliberadamente a premissa e os personagens funcionais do clássico de Hong Kong. A diferença está entre a natureza industrial do projeto e a maneira como o diretor decidiu recriá-lo.
Remake para o estúdio, outra versão para John Woo
A Universal descreve o longa de 2024 como uma releitura radical do filme de 1989. O lançamento americano ocorreu pelo Peacock em 23 de agosto de 2024, conforme o anúncio do serviço. Já Woo afirmou em entrevista ao TheWrap que, durante a produção, preferia chamar o trabalho de outra versão de The Killer. Não há contradição necessária: remake identifica a relação entre as obras; outra versão expressa a intenção artística de modificar a história, em vez de simplesmente reproduzir seus acontecimentos.
O diretor relatou que resistia à ideia de refazer um de seus próprios filmes. Passou a se interessar pelo projeto quando os roteiristas Josh Campbell e Matt Stuecken propuseram transformar a figura central, antes masculina, em uma mulher. Mais tarde, Brian Helgeland reformulou o roteiro e reforçou mudanças no investigador, no humor e no final. Woo disse que reconheceu nessa abordagem o espírito que buscava preservar do original.
O que mudou de Hong Kong para Paris?
As duas narrativas mantêm o conflito entre uma pessoa que mata por encomenda, uma cantora ferida e um policial capaz de enxergar humanidade no alvo que persegue. Mas mudam as relações de causa e consequência. No longa de 1989, Ah Jong, interpretado por Chow Yun-fat, fere acidentalmente os olhos da cantora Jennie, vivida por Sally Yeh. A culpa e a tentativa de ajudá-la a recuperar a visão impulsionam suas decisões. O investigador Li Ying, papel de Danny Lee, torna-se progressivamente seu aliado.
Na produção ambientada em Paris, Zee, interpretada por Nathalie Emmanuel, poupa Jenn, personagem de Diana Silvers, apesar da ordem para eliminá-la. O gesto a coloca em conflito com seu contratante e sob investigação de Sey, o policial vivido por Omar Sy. A cantora continua sendo central, mas o motor dramático ganha a forma de uma recusa a obedecer, seguida de uma conspiração criminosa.
| Elemento | The Killer (1989) | The Killer (2024) |
|---|---|---|
| Ambientação | Hong Kong | Paris |
| Pessoa assassina | Ah Jong, interpretado por Chow Yun-fat | Zee, interpretada por Nathalie Emmanuel |
| Cantora | Jennie, interpretada por Sally Yeh; ferida acidentalmente | Jenn, interpretada por Diana Silvers; poupada após a ação no clube |
| Investigador | Li Ying, interpretado por Danny Lee | Sey, interpretado por Omar Sy |
| Conflito principal | Culpa, lealdade e aproximação entre adversários | Desobediência à ordem, perseguição e alianças rompidas |
| Tratamento narrativo | Melodrama trágico e laços de honra | Mais espaço para humor e um destino diferente para a protagonista |
A mudança de protagonista altera também as relações
No clássico, a conexão entre Ah Jong e Jennie evolui para um romance, enquanto a amizade improvável entre o matador e Li Ying sustenta o choque entre dever profissional e código moral. A comparação publicada pelo Guardian observa que a obra de 2024 preserva o desenho básico desses vínculos, mas não reproduz suas mesmas tensões afetivas. O novo roteiro concentra mais atenção na trajetória de Sey e em sua aproximação com Zee.
Assim, a troca de gênero da personagem principal tem efeitos que vão além do elenco. Ela modifica o modo como o roteiro organiza o cuidado com a cantora e a cumplicidade com o policial. É uma distinção de construção dramática, não uma afirmação de que a versão nova abandona os temas recorrentes de Woo. A crítica da Folha, assinada por Sérgio Alpendre, inclusive destaca o espelhamento entre a assassina e o investigador, além das identidades morais ambíguas.
Por que a refilmagem demorou tanto?
Segundo a reportagem de Drew Taylor para o TheWrap, projetos de uma versão americana surgiram nas décadas seguintes à estreia de 1989, com diferentes nomes envolvidos, sem que uma adaptação avançasse. Woo disse que a dificuldade de encontrar uma combinação convincente de diretor, elenco e roteiro foi decisiva. A nova proposta com uma protagonista feminina o levou a assumir pessoalmente a direção.
Lupita Nyong’o esteve ligada ao papel central em uma etapa anterior. De acordo com o relato de Woo ao TheWrap, ela deixou o projeto após mudanças no texto e outras oportunidades de trabalho; Nathalie Emmanuel assumiu a personagem. Na mesma reformulação, o projeto deixou a perspectiva de distribuição comercial nos cinemas pela Universal para estrear no Peacock nos Estados Unidos. Essa informação histórica sobre a estreia americana não significa que a disponibilidade em streaming tenha sido igual no Brasil.
A Paris de John Woo mantém marcas do cinema de Hong Kong
A mudança de cidade também tinha uma razão pessoal para o diretor. Na entrevista ao TheWrap, Woo relacionou sua vontade de filmar na França à admiração por Jean-Pierre Melville, especialmente por histórias de criminosos solitários como Le Samouraï. Dessa maneira, Paris serve como referência cinematográfica e não apenas como novo cenário.
A refilmagem preserva recursos de estilo associados a Woo, entre eles armas empunhadas em ambas as mãos, movimentos coreografados e pombas em passagens de ação. A recepção desses elementos não foi uniforme. Sérgio Alpendre, na Folha, valorizou a encenação e a relação entre Zee e Sey; Jesse Hassenger, no Guardian, considerou a narrativa de 2024 mais leve e menos romântica do que a de 1989, embora reconhecesse a capacidade de Woo de dirigir ação. São avaliações atribuídas a dois críticos, não um consenso medido.
Atenção, spoilers: a seção seguinte revela o resultado dos dois filmes. Se ainda pretende assisti-los sem conhecer os finais, pare a leitura aqui.
Por que o final de 2024 muda o sentido da história?
O filme de 1989 termina de maneira trágica, com a morte de Ah Jong após a violência que destrói a possibilidade de um futuro com Jennie. A tentativa de reparação e o vínculo entre os protagonistas desembocam em perda, aspecto central do tom fatalista da obra.
Em 2024, Woo aceitou a decisão de Brian Helgeland de oferecer à nova protagonista uma saída menos trágica. A versão permite que Zee sobreviva e aponta para a possibilidade de deixar a vida de assassinatos, enquanto a parceria com Sey chega a outra resolução. Em vez de repetir o sacrifício do original, o desfecho aposta na possibilidade de mudança. A entrevista do diretor ao TheWrap confirma que o final mais feliz foi uma escolha deliberada do roteiro.
Por isso, chamar The Killer (2024) de remake continua correto na linguagem da indústria e da crítica. Chamar de outra versão, como faz John Woo, ajuda a entender o que ele priorizou: preservar a ideia de um assassino com consciência e reconstruir o caminho, as relações e o destino dessa figura para uma história situada em Paris.





